Arquivos para a Categoria ‘Metablogagens’
Publicado por Rafael Falcón em Terça-feira, 1 dUTC Dezembro dUTC 2009
Quando eu tinha quinze anos, escrevi um poema excepcional, não por qualidade poética, mas por inspiração autêntica e pura, que revelava de modo quase transparente o que se passava dentro de mim. Poça de Sangue é uma límpida fonte para conhecer o modo como eu percebia o amor aos quinze anos. Lamentavelmente, o texto perdeu-se, e restou apenas o que retive na memória; ganhou, assim, existência semelhante aos mitos, e seu sentido completo é para mim um mistério, porque já não tenho o objeto em si mesmo para analisar. Possuo, no entanto, as sensações que tive ao escrevê-lo e o reler algumas vezes, pois tudo isso está na minha lembrança.
A primeira parte do texto existe para mim como um conjunto de impressões. Lembro-me fortemente de expressões de dor, da figura de uma espada cortando o tendão, e de um abismo solitário. A sensação era de um mundo reativo e inimigo, quixotesco até, pois tudo eram grandes moinhos a atacar-me caoticamente; o elemento social, pelo que me lembro, comparecia sob a forma de máscaras que riam na escuridão, isto é, atacando-me do mesmo modo, sem que eu pudesse apreender uma ordem naquilo tudo. Pode-se dizer que eu, isto é, a unidade subjetiva da minha força vital, fui desintegrado pelas forças externas ou meramente por existir sozinho no mundo das forças externas. Daí surgia a poça de sangue, o substrato dessa fase. O sangue é a força vital, que perdeu a unidade do eu e se tornou uma poça inerte. A poça de sangue, então, é a imagem das ruínas que um dia foram vida; é a casca morta da vida; é o triste signo do nada que já foi alguma coisa.
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Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 25 dUTC Novembro dUTC 2009
Vejo certa utilidade em explicar algumas partes do último post que, apesar de não concederem automaticamente a compreensão do texto, podem ser instrumentos importantes para a sua aquisição. O sentido global do post não pode ser explicado aqui, pelo menos não por mim; provavelmente eu gastaria dezenas de páginas para o primeiro parágrafo. Portanto, o leitor faça sua própria introjeção do texto, que talvez seja mais rica que a minha.
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Publicado por Rafael Falcón em Segunda-feira, 12 dUTC Outubro dUTC 2009
Sei que parece incrível, mas é verdade. Ando pensando muitas coisas, mas agora estou com esse estranho hábito de pensar direito antes de sair falando. Tenho ideias, mas todas são como faíscas saindo da pedra de acender fogo. A fogueira mesmo ainda vai demorar para sair. De qualquer modo, às vezes sai um fogo-de-palha que eu posto no blog.
Sei que você se acha muito esperto, mas eu também percebi que faz meses que não posto nada sem o nome de Deus. Ôps, fiz de novo. Andei preocupado com a minha relação com Ele, mas agora estamos nos resolvendo, aos poucos e com muitas concessões da parte dEle, esse Amor de Pessoa. Não mereço nem metade das concessões, mas o amor não é assim? É sim.
Alguns dos possíveis temas dos meus próximos posts (porque são assuntos sobre os quais ando tendo insights) são: educação, linguagem, casamento/filhos (isso mesmo, com aquela nanica), misticismo, desenvolvimento da personalidade/hipnose. Tem mais coisas, mas isso é o que lembro agora. Vai saber o que vou tirar disso tudo. Tchau.
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Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 28 dUTC Maio dUTC 2009
A fixação do intelectual brasileiro mediano pela sonoridade tornou-se um problema para mim, tanto quanto nunca a tive senão por acessos esporádicos.
Enquanto você tenta entender a frase acima, vou-me explicando. Se você pede a uma pessoa normal que faça um verso e se, por fim, consegue convencê-la a tanto – o que há de ser tarefa heróica – obterá algo prosaico, como que a expressão direta de algum conceito social. As pessoas comuns tendem a escrever poemas como textos em prosa com pausas no meio. As menos criativas fazem as pausas coincidirem com os pontos finais, como se cada verso fosse um gnoma, uma frase completa em si mesma. Bendito o senso de proporção das pessoas comuns.
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Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 9 dUTC Outubro dUTC 2008
Como sou muito melhor que você, decidi que passarei a cunhar palavras para expressar meus elevadíssimos conceitos filosófico-bloguísticos. E o primeiro termo será “modernice”.
Tipo, quando você vê um baiano fazendo merda de baiano, chama de baianice. Quando vê o Bóris Casoy ou seja lá como se escreve isso, chama de tosquice. Quando vê um neonazista, chama de babaquice. Quando vê um carioca, eh, existindo, fala que é carioquice.
Da mesma maneira, chamaremos de modernice os mais diversos fenômenos, contanto que possuam o sema /moderno/ e sejam coisa de gente ridícula. O campo de abrangência é extenso: vai de fenômenos absolutamente políticos (serviço militar obrigatório, por exemplo, ou educação em massa) até pessoalidades das mais toscas (tipo quando alguém usa expressões como “as profundezas do meu ser” ou “a incomunicabilidade do estar-aí”).
Para verificar se está vendo modernices, basta fazer o teste: modernices sempre são totalmente inimagináveis na Antigüidade.
Imagine Aristóteles falando das profundezas do ser dele ou das contradições internas da linguagem. Imagine Cícero comparando um político de Roma (e até ele mesmo!) com um gladiador, positivamente. Imagine Virgílio gastando trinta páginas da Eneida em enjoadíssimos diálogos com o leitor, porque acha bonitinho ser metadiscursivo.
Referências das modernices citadas, em fenômenos reais: respectivamente Deleuze, Lula (cf. qualquer das milhares de comparações que ele já fez de política com futebol) e Clarice Lispector.
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Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 25 dUTC Setembro dUTC 2008
E outras coisinhas mais.
Vinícius é outro aluneco da u-esse-pê, também da Letras, mas feitor de portuguesas e brasileiras literaturas. Gosta de Guimarães Rosa, Walt Whitman, Samuel Beckett e do seu amigo Emmanuel, cujo link eu ia colocar no nome, mas fiquei com preguiça de ir olhar.
Vinícius lê, como referência teórico-crítica, os próprios escritores de quem gosta, além de loucos varridos como Harold Bloom.
Vinícius gosta de literatura, gosta de crítica e sente verdadeiro prazer em escrever longas análises de contos, livros e poemas. Portanto, ele já faz isso no seu blog, mesmo sem ninguém pagar.
Vinícius é, enfim, meu crítico literário de cabeceira: fica aqui, na cabeceira dos Favoritos.
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Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 24 dUTC Setembro dUTC 2008
Beware the acute people! Estão por toda parte, principalmente em salas de aula e no Orkut. São sábias, são inteligentes, são espertas – são tudo o que eu e você não somos, meu caro e simples mortal. Estão dispostas a tudo e usam todas as armas, principalmente as aspas, suas melhores amigas.
Pessoas agudas são irônicas, talvez as poucas no mundo que acham que ser irônico é algo de bom; são questionadoras e originais, pelo menos nas discussões com a mãe e o irmão menor; são modernas e informadas, só não leram nada anterior a 1960. Tá bom, tá bom, as mais sofisticadas leram Dostoiévski.
Se temes desafiar o senso comum, nunca desafies o senso agudo: haver-te-ão às mãos todas as pessoas agudas, com ironias mordazes e as sempre presentes aspas! Repetirão trinta vezes que não ofereces argumentos ou provas contra as evidências que elas apontam (mesmo que já tenhas demonstrado geometricamente que elas são burras); acusar-te-ão de alienado e de manipulado pela mídia (mesmo que respondas “sou alienado somente da tua burrice”); chamar-te-ão de pseudo-”intelectual”, ou de “pseudo-”intelectual”", ou com quantas aspas puderem! Treme, infiel, diante das pessoas agudas!
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Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 17 dUTC Setembro dUTC 2008
Estou colocando o índice com links para os contos, em seqüência. Isso facilita quando eu quiser mencionar a série como um todo, além de pressionar um pouco vocês – que não leram os outros contos antes de ler este último – a reler a coisa toda para entender melhor. A série, como eu já disse antes, é fechada em si mesma. De hermetismo não tem nada. Toma:
I. O que há dormente
II. Aurora lacrimosa
III. Revelação
Modéstia à parte, gostei desses contos. O segundo, Aurora lacrimosa, é um pouco chinfrim, chato e nojento (e eu o melhorarei no futuro), mas os demais me agradam muito (embora eu já tenha algumas correções em mente para eles também). Boto fé, leia mesmo. Não será perda de tempo.
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Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 13 dUTC Setembro dUTC 2008
Boa parte da filosofia acadêmica, do mais baixo ao mais elevado, tem sido baseada no postulado da banalidade, é dizer, na suposição de que tudo o que existe é desprovido de significado e, portanto, de significância. Boa parte das vezes esse axioma é aceito porque soa moderno, consonante com as últimas reflexões epistemológicas dos maiores filósofos da atualidade, que como Newton “viram mais longe porque estavam sobre os ombros de gigantes”.
Bobagem não tem limite, não é mesmo meus filhos? Principalmente se os maiores filósofos da modernidade são Nietzsche e Derrida. Descobrimos a banalidade do mundo, que monstros como Aristóteles ou Espinosa foram incapazes de ver. Claro, eles precisavam escrever seus trabalhos para que nós, após lê-los, pudéssemos questioná-los e fazer essa maravilhosa descoberta. Parece óbvio agora, meus alunos, mas na época não parecia. Contexto histórico, hello people!
Ai meu céulebro. Essa explicação da banalidade é simplesmente a primeira que acorre a qualquer adolescente que medita cinco minutos sobre a realidade. Na Antigüidade, houve mesmo quem defendesse a idéia: Diógenes, o Cão, por exemplo. É que ele gostava de dizer coisas ridículas para afastar os estranhos.
Os grandes filósofos da história não defenderam a idéia simplesmente porque ela não tem valor nenhum, é especulação de botequim que pode ser desmentida com exercícios lógicos introdutórios. Aliás, a própria idéia se desmente, quando aplicada a si mesma. Se nada faz sentido, ela também não faz, então qual é sua validade em comparação com outras idéias?
Por banalidade, entendo o produto da primeira tentativa de abstração feita pela mente humana. Quando o homem continua tentando, temos um Platão; quando ele fica com preguiça, temos um Derrida. Agora tô com sono, mas amanhã eu venho aqui desmentir Hegel e Kant.
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Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 10 dUTC Setembro dUTC 2008
Acabo de submetê-lo e estou esperando pela avaliação. Quando publicado, disponibilizarei uma versão em PDF aqui, provavelmente num link da página fixa.
Trata-se, para quem não sabe, de uma proposta de tradução do dístico elegíaco latino, forma que desapareceu no tempo e que já não tem correspondente em português. A elegia, da mesma maneira, é um gênero extinto, que na Antigüidade ocupou lugar proeminente e tinha poetas exclusivos.
O artigo explicará mais. Aguardem.
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