Rafael Falcón em Perspectiva

Porque em perspectiva tudo fica mais bonito

Arquivos para a Categoria ‘Literatura & Cultura’

Canção da Tarde no Campo

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 24 dUTC Julho dUTC 2009

Cecília Meireles

Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

Publicado em Existenciais, Literatura & Cultura | 1 Comentário »

Por que ler Olavo de Carvalho

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 21 dUTC Junho dUTC 2009

Quero apresentar algumas razões simples e claras para ler o perigoso e louco extremista de direita, teórico da conspiração e astrólogo aposentado Olavo de Carvalho. Essas razões podem até chegar a explicar, para os que ainda não entenderam, por que eu mesmo, sendo uma pessoa tão sensata e bacaninha, leio, aprecio e defendo os textos desse nosso ilustre velho desconhecido.

Primeiramente, quero supor que Olavo de Carvalho seja  mesmo louco, teórico da conspiração e todo esse catatau. Digamos que sim, ele é maluco, e é lógico que Obama não é um fantoche do Governo Mundial; é lógico que a esquerda brasileira não tem um projeto para tomar o poder; é lógico que o Foro de São Paulo é só um clubinho de gente simpática e inteligente; é lógico que isso de direita e esquerda nem existe mais, e o que há é progressistas e retrógrados.

Leia o resto deste artigo »

Publicado em Literatura & Cultura | 2 Comentários »

Em busca da melodia perdida

Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 28 dUTC Maio dUTC 2009

A fixação do intelectual brasileiro mediano pela sonoridade tornou-se um problema para mim, tanto quanto nunca a tive senão por acessos esporádicos.

Enquanto você tenta entender a frase acima, vou-me explicando. Se você pede a uma pessoa normal que faça um verso e se, por fim, consegue convencê-la a tanto – o que há de ser tarefa heróica – obterá algo prosaico, como que a expressão direta de algum conceito social. As pessoas comuns tendem a escrever poemas como textos em prosa com pausas no meio. As menos criativas fazem as pausas coincidirem com os pontos finais, como se cada verso fosse um gnoma, uma frase completa em si mesma. Bendito o senso de proporção das pessoas comuns.

Leia o resto deste artigo »

Publicado em Artigos, Literatura & Cultura, Metablogagens | Leave a Comment »

Poemas de Propércio (25, 26 e 27 do livro II)

Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 28 dUTC Maio dUTC 2009

Tradução livre, no meters, no poetics. Já que tenho de fazer isso para estudar pra prova, pelo menos algum leitor se beneficia. Clique no botão “leia o resto deste artigo” para ver os poemas traduzidos, verso a verso.

Leia o resto deste artigo »

Publicado em Literatura & Cultura | Leave a Comment »

Falar latim

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 3 dUTC Maio dUTC 2009

Conto uma anedota: na comunidade Latim, do Orkut, há pessoas que desejam falar e escrever em latim. Pode parecer absurdo e, na maioria dos casos, certamente não passa de pedantismo, mas não deixa de ser pitoresco; o bastante, suponho, para que eu pense no assunto por ele mesmo, independentemente das intenções desta ou daquela pessoa que adere à ideia.

Lembro ter lido algures que Descartes ou alguém dessa laia achava que aprender latim melhorava o pensamento, não sei se em vista de certa organização natural da língua, que faltaria ao francês. Lembro claramente ter ouvido que Montaigne era obrigado pelo pai a conviver com um tutor alemão, com quem só podia falar em latim. Aparentemente, o pai de Montaigne partilhava da ideia de Descartes. Foi o Guilherme, aliás, aí do lado, quem me disse que Petrarca pensava em latim e escrevia em italiano – ainda não sei italiano o bastante para confirmar. Ideiazinha pitoresca e absurda, como seja, mas aos modernos lhes agradava. Não confio o bastante em nossa ciência de meia-pataca para desprezar-lhes a opinião. Não conheço um linguista da USP que possua metade do conhecimento linguístico de Petrarca. Leia o resto deste artigo »

Publicado em Artigos, Literatura & Cultura | Leave a Comment »

Anotações sobre a Força

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 19 dUTC Abril dUTC 2009

Fear is the path to the Dark Side.
Fear leads to anger;
Anger leads to hate;
Hate leads to suffering.
(Yoda, Mestre Jedi)

Em Star Wars – Guerra nas Estrelas, de George Lucas, alguns seres vivos desenvolvem habilidades especiais, baseadas geralmente em maior poder de concentração, autocontrole e força de vontade. Essas habilidades relacionam-se à Força, uma energia invisível que penetra todas as coisas, identificada com certa espécie de luz espiritual. Yoda, personagem central para o entendimento do tema, diz num filme: “luminous beings we are, not this crude matter”. O assunto tem interesse limitado, contudo o tem: é sem dúvida a proposta mais consciente de George Lucas em toda a série.

Os seres especiais que desenvolvem habilidades com a Força são chamados Jedi ou Sith, de acordo com a interpretação que fazem do funcionamento dessas mesmas habilidades e, portanto, do seu dever em relação a elas. É comum que Jedi e Sith sejam opostos como Bem e Mal, pelos desatentos e desonestos; um exame mais cuidadoso revelaria facilmente que o interesse de Lucas ultrapassa o simples maniqueísmo. Trata-se de concepção semi-oriental, em que os opostos resultam um do outro naturalmente. Isto será provado adiante. Leia o resto deste artigo »

Publicado em Artigos, Existenciais, Literatura & Cultura | 4 Comentários »

A lei de Deus e as leis do homem

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 6 dUTC Março dUTC 2009

Eu sei que não é charmoso comentar o caso de aborto da menina de nove anos e blá-blá-blá, mas vi ali algo de interesse universal. Tudo o que tem interesse universal é naturalmente charmoso, claro.

Não querendo comentar nada sobre pessoas, se é que o Sr. Presidente é pessoa, passo ao plano universal e deixo a indução por vossa conta. O caso lembrou-me Antígona, a moçoila do ciclo edípico, cuja história é manjadíssima para quem quer que tenha um pingo de cultura: o irmão da moça morreu, mas o rei Creonte não permite que seja enterrado, tendo em vista que tombou tentando tomar a cidade para si. A lei de Tebas proíbe que o traidor seja enterrado; a lei divina, por outro lado, exige que todo homem passe pelos rituais fúnebres, sob pena de esperar cem anos às margens do rio Aqueronte, que leva o morto para o descanso final.

Antígona, é claro, quebra a lei: enterra o irmão com as próprias mãos, e é enterrada viva por ordem de Creonte. A fábula mostra o conflito entre a lei dos homens, que estabelece a ordem na Terra mas muitas vezes reflete os vícios propriamente humanos, e a lei dos deuses, que está acima das particularidades sociais. A pobre Antígona foi enterrada viva, preferindo a dor na existência terrena ao ônus do crime religioso. Ela foi, é claro, para os Elísios, premiada por sua integridade e fé.

Quanto a Creonte, não é preciso dizer nada. O duro é ver que os mesmos erros continuam a repetir-se, apesar dos avisos de filósofos e poetas. Fazer o quê. De boas intenções, diz bem o adágio, o Inferno está cheio.

(e Creonte, cristão e católico? Tenha santa paciência!)

Publicado em Cotidiano, Existenciais, Literatura & Cultura | 2 Comentários »

Age of Aquarius

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 1 dUTC Março dUTC 2009

Quem pensou que eu tinha abandonado o blog, concha tu madre!, pensou errado. Estava demasiado ocupado para escrever aqui. Ainda estou ocupado, mas tive um alívio, momentâneo embora, e achei bom dar um intervalo fazendo mais um post engraçadinho para entreter os meus miguxos.

Escrevi o título do post pensando na menina do comercial de água com limão, que fica sacudindo os braços. Acho que o nome é Mariazinha siue Natura. Estou inaugurando essa forma de usar a expressão siue Natura, que é muito conhecida de Spinoza, pela frase Deus siue Natura. Spinoza usava com sentido terminológico: “Deus ou Natureza”, em suma, tanto faz dizer Deus ou Natureza, porque é a mesma coisa. Baseado em Spinoza, quando eu digo something siue Natura, quero dizer, isto ou seja lá o que for, que se dane. Quer dizer, você pode ser bonito, feio siue Natura, não ligo pra você. Tanto faz se for bonito ou o diabo.

Sobre a Mariazinha, ela é o protótipo da mulher New Age. Sai balançando aqueles braços pra todo lado, como um alienígena bêbado, mas a pessoa nota o vazio existencial da moça. Ela mergulhou naquela água com limão num êxtase sofístico, gritando “não existe refrigerante senão a própria água”, e depois de beber tanta água com limão, ela não consegue deixar de perguntar-se se não teria sido melhor acreditar no guaraná. A gente nunca se esquece da interrogação fundamental: e depois, quando tudo acabar… será que existe a dor de barriga?

Não me façam essas perguntas, não sei nada sobre o assunto. Sou tão humano quanto vocês, embora seja mais que a Mariazinha; bem mais. Mas ando desconfiando que a dor de barriga pode ser evitada. No mais, não tenham dúvidas: refrigerante é guaraná Antártica.

Publicado em Existenciais, Literatura & Cultura, Novidades | 2 Comentários »

De elegantia

Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 21 dUTC Janeiro dUTC 2009

Tudo começa entre o vulgo, aquela imensidão de homens detestáveis sem os quais, não obstante, nenhuma ciência do homem seria possível. Pois as pessoas vulgares, como dizemos, são tão primitivas, e são de tal maneira desatentas aos detalhes importantes, que nunca conhecem o conceito de elegância, de forma que se recusam a usar essa palavra, porque lhes é difícil encontrar para ela um significado apropriado.

De fato, o homem vulgar é pior não só pela cultura que não possui e pelos hábitos detestáveis, mas também pelo caráter. É vicioso e censurável em cada um de seus atos, e mesmo quando age corretamente, fá-lo pelas razões erradas. E é assim que, quando se relaciona com outros homens, aquele não pode agir senão passando por cenas ridículas, agredindo e magoando os demais.

A elegância dos homens consiste, diferentemente do que se pensa, não em conhecer regras de etiqueta, mas em existir suavemente. O homem elegante, isto é, aquele que há muito abandonou a vulgaridade, emociona-se, age e reage, sem contudo ser percebido em suas mudanças. Parece, aos vulgares, frio; mas há entre o frio e o elegante esta grande diferença, que é que o elegante reage visivelmente a tudo com muita sensibilidade.

Ora, se o vulgo não percebe suas reações, é somente porque está acostumado ao espalhafatoso, exibicionista e ridículo, que precisa fazer escândalos para chamar atenção a si. O homem elegante não reage com exageros, porque não se arroga tanta importância a ponto de invadir os momentos privados de todas as pessoas só para atrair para si a atenção alheia.

A elegância consiste, é claro, em existir suavemente, e é por isso que o homem elegante, ao receber a notícia da morte de sua família num jantar, contenta-se com um pequeno suspiro, um olhar tanto mais parado, uma torcidinha de nariz um pouco diferente. É por isso, e não pelo que se chama “gelidez”, que tudo o que se passa na vida do homem elegante é totalmente desconhecido a todos com quem ele convive; não porque ele se recusasse a falar, mas porque ninguém foi capaz de perceber os pequenos detalhes com que ele expressava suas reações. A vida elegante é uma vida solitária.

Publicado em Cotidiano, Literatura & Cultura | 1 Comentário »

Propércio II, 26

Publicado por Rafael Falcón em Segunda-feira, 24 dUTC Novembro dUTC 2008

Eu te vi em sonhos, meu amor, num navio destruído, a mover as fracas mãos no líquido jônio, e a confessar todas as vezes que me enganaste; e sem poder levantar do fluido os pesados cabelos, tal como, agitada pelas ondas escuras, Hele, aquela que um carneiro dourado carregou sobre o dorso macio.
Como temi que o mar ganhasse, talvez, o teu nome, e que o marinheiro, singrando, derramasse o pranto sobre tuas águas! As providências que tomei a Netuno, e com o irmão Cástor, e todas que tomei a ti, ó Leucótoe, que agora és uma deusa!
Mas tu, levantando primeiro, com dificuldade, as palmas das mãos, prestes a perecer, chamas continuamente meu nome… Se talvez Glauco tivesse visto os teus olhinhos, terias sido transformada na menina do mar jônio, e as Nereidas, a branca Neseia, a cerúlea Cimótoe, censurar-te-iam por inveja.
Mas eu vi acorrer em teu auxílio um golfinho, o qual, acho, carregara antes a lira de Aríon. E eu já estava tentando lançar-me do alto contra um rochedo, quando o meu medo dissipou essas visões…

Publicado em Literatura & Cultura | 1 Comentário »