Arquivos para a Categoria ‘Existenciais’
Publicado por Rafael Falcón em Terça-feira, 1 dUTC Dezembro dUTC 2009
Quando eu tinha quinze anos, escrevi um poema excepcional, não por qualidade poética, mas por inspiração autêntica e pura, que revelava de modo quase transparente o que se passava dentro de mim. Poça de Sangue é uma límpida fonte para conhecer o modo como eu percebia o amor aos quinze anos. Lamentavelmente, o texto perdeu-se, e restou apenas o que retive na memória; ganhou, assim, existência semelhante aos mitos, e seu sentido completo é para mim um mistério, porque já não tenho o objeto em si mesmo para analisar. Possuo, no entanto, as sensações que tive ao escrevê-lo e o reler algumas vezes, pois tudo isso está na minha lembrança.
A primeira parte do texto existe para mim como um conjunto de impressões. Lembro-me fortemente de expressões de dor, da figura de uma espada cortando o tendão, e de um abismo solitário. A sensação era de um mundo reativo e inimigo, quixotesco até, pois tudo eram grandes moinhos a atacar-me caoticamente; o elemento social, pelo que me lembro, comparecia sob a forma de máscaras que riam na escuridão, isto é, atacando-me do mesmo modo, sem que eu pudesse apreender uma ordem naquilo tudo. Pode-se dizer que eu, isto é, a unidade subjetiva da minha força vital, fui desintegrado pelas forças externas ou meramente por existir sozinho no mundo das forças externas. Daí surgia a poça de sangue, o substrato dessa fase. O sangue é a força vital, que perdeu a unidade do eu e se tornou uma poça inerte. A poça de sangue, então, é a imagem das ruínas que um dia foram vida; é a casca morta da vida; é o triste signo do nada que já foi alguma coisa.
Leia o resto deste artigo »
Publicado em Existenciais, Metablogagens | Leave a Comment »
Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 21 dUTC Novembro dUTC 2009
Nalgum lugar entre a montanha celeste e a floresta dos murmúrios, vivia há trinta anos um mago chamado Teofrasto, que alcançara a iluminação. Desde então, o mago vivia numa atmosfera maravilhosa e incomunicável: tudo em volta lhe parecia de ouro (e, de fato, ele era capaz de converter o mais rude musgo numa pepita valiosa). Seus poderes alcançaram a elevação suprema, pelo que nada lhe era impossível, e mesmo a consciência, cuja deficiência levara muitos magos a perderem-se pelas próprias mãos, em Teofrasto estava apurada ao máximo, pois ele se entendia no todo da natureza e compreendia o ponto transcendente para o qual tendiam todas as coisas, e pelo qual tudo havia sido criado e era mantido. É claro que você não entendeu uma palavra do que eu disse.
Leia o resto deste artigo »
Publicado em Existenciais, Minhas Artes | 2 Comentários »
Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 6 dUTC Novembro dUTC 2009
Eu andava pelas cidades e vales com a imaginação tomada por possibilidades. Pensava na vida, nos sentidos, na sociedade, na construção civil, na religião; pensava no que me aparecia como sendo parte da vida humana, aqui e acolá. Pensava na dor e na alegria, e era isso o que eu chamava de tristeza e felicidade, de mal e de bem.
Minha vida era ocasião de muitas desventuras, porque eu me entendia como um lugar em que as forças do destino brigavam, trazendo ora a felicidade, ora a tristeza, preenchendo-me, tomando-me. Minha vida era um enfadonho romance, pode-se dizer, com medíocres reviravoltas que me serviam mal no lugar de aventuras grandiosas e ficcionais.
Leia o resto deste artigo »
Publicado em Existenciais, Minhas Artes | 3 Comentários »
Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 31 dUTC Outubro dUTC 2009
Fecha os olhos e vê: há uma rosa vermelha
No topo da montanha, e não queres olhar.
Olha, olha! Já se agita
A brisa da montanha
Ela vai, como que colhe
A rosa da montanha
E valsando procura a teu lado pousá-la.
Procura; não pode. Esta brisa é instável;
Move-se, move-se, e a rosa desfaz.
Move-se;
Move-se…
Pétalas caem
Sobre o teu rosto
E o colo suave,
E sentes as pétalas roçando suaves
A pele grosseira que tu maltrataste.
E súbito vês: não era mais rosa!
Líquidas pétalas cobrem de sangue
O teu colo vermelho, teu rosto gentil
E vês que teus pés vão-se rápido fixando
Tornando-se caule, tornando-te rosa;
És rosa e contemplas, do alto da montanha,
Os vales abaixo… os rios defluindo,
Uma moça chorando aos pés da montanha!…
Publicado em Existenciais, Minhas Artes | Leave a Comment »
Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 30 dUTC Outubro dUTC 2009
Eu estava num ponto de ônibus quando vi uma moça passar. Sisuda, andar firme, não olhava para os lados. Nem um pingo de doçura. Era rígida, dessas mulheres que não se amam; quem ama esta mulher? Não sei; a ideia parece-me absurda. Mas ela passava frígida, lábios espremidos com força debaixo do nariz adunco. Magricela. Odiei. Que passe, pensei, rápido como as dezenas de outras iguais que vejo neste ponto de ônibus. Que passe.
Mas ela viu chegar seu ônibus, o que me deu uma pontinha de raiva. Pude ver a expressão desagradável em seu rosto moldar-se a algo como esperança, mas esperança num rosto desagradável. Odiei sua satisfação, ela que não sorria, que não amava; ela que eu não amava. Irritei-me; esperava há mais de quinze minutos pelo meu ônibus.
Leia o resto deste artigo »
Publicado em Existenciais, Minhas Artes | 2 Comentários »
Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 19 dUTC Setembro dUTC 2009
Deus fala conosco. Não só por milagres, os sinais incontestáveis que ele fornece para chocar o entendimento humano; não só pela instituição chamada Igreja Católica, que interpreta, divulga e resguarda Seus mandamentos misteriosos; não só pelas Escrituras, que são o testemunho de Sua encarnação incompreensível. Deus fala, sempre que o mundo existe; fala por meio das outras pessoas, mesmo quando elas não percebem; fala pelos fatos. A realidade é a linguagem de Deus; eis porque jamais há contradição entre Deus e a realidade.
Deus não fala só com os que professam a fé católica, nem só com os que professam alguma fé. Ele fala com todas as pessoas, porque os fatos existem para todos os seres inteligentes. E Ele não apenas fala; seu discurso eterno é apaixonado, intenso, pessoal. Deus nos ama individualmente e pessoalmente, sim; Ele fez nossas almas uma por uma, e planejou nossa salvação de acordo com as nossas necessidades particulares. Deus nos ama pessoalmente e infinitamente, como só Ele pode amar.
Leia o resto deste artigo »
Publicado em Artigos, Existenciais | 12 Comentários »
Publicado por Rafael Falcón em Segunda-feira, 7 dUTC Setembro dUTC 2009
O trabalho é a transformação de uma matéria natural em algo propriamente humano. Em última instância, todo trabalho envolve a industrialização de algo; se não do produto, ao menos do homem que trabalha. Trabalhar não é propriamente receber um salário ou ter carteira assinada; é fazer algo de que outras pessoas precisam, de modo contínuo e cada vez mais perfeito. Trabalhar é, finalmente, aperfeiçoar-se na caridade.
O homem que não trabalha é algo menos que um homem. Uma vez você me disse: “o trabalho brutaliza o homem”; mas o homem que não trabalha está tão embrutecido que, se o trabalho o brutalizasse, não conseguiria mudar muita coisa. O bruto é o que não foi transformado, o que está como veio ao mundo; o único modo de passar do embrutecimento à humanidade é pela transformação do trabalho. Portanto o trabalho não brutaliza e, muito mais, é apenas ele que pode humanizar. Porque o trabalho é o exercício constante e evolucionário do amor; e é só pelo amor que o homem se torna homem.
Leia o resto deste artigo »
Publicado em Cotidiano, Existenciais, Novidades | 1 Comentário »
Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 13 dUTC Agosto dUTC 2009
“Quero escolher meus objetivos, decidir meus ideais”, você me diz. Mas o que você escolherá? O que lhe agrada? Assim passará a vida ansiando pelo prazer. O que lhe parece que é o Bem? Apesar de mais certo, sua capacidade de julgar é obnubilada pela aparência das coisas. Como pode saber o que é melhor para você?
“Mas, se eu não fizer minha escolha, quem a fará por mim?”, você me pergunta. Eu e você sabemos quem fará, contanto que você peça humildemente. E sua escolha final será aceitar, sem questionar, a Sua decisão. Esta é a nossa pequena e maravilhosa liberdade: aceitarmos o que a realidade nos destina, ou nos debatermos contra ela, inutilmente, até a morte.
Publicado em Cotidiano, Existenciais | Leave a Comment »
Publicado por Rafael Falcón em Terça-feira, 11 dUTC Agosto dUTC 2009
Você quer conquistar seus ideais e alcançar seus objetivos. Mas se não bastasse toda a ordem da natureza, que resiste impassível aos seus planos, há ainda tantos homens semelhantes, que desejam conquistar liberdade para si próprios, às custas da sua! E você pensa que sua vontade é maior que todas as vontades humanas juntas? Pobre-diabo, que quer ser Deus!
Publicado em Cotidiano, Existenciais | 2 Comentários »
Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 24 dUTC Julho dUTC 2009
Cecília Meireles
Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.
Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.
Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!
Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.
Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.
Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.
De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.
Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.
Publicado em Existenciais, Literatura & Cultura | 1 Comentário »