Tudo começa entre o vulgo, aquela imensidão de homens detestáveis sem os quais, não obstante, nenhuma ciência do homem seria possível. Pois as pessoas vulgares, como dizemos, são tão primitivas, e são de tal maneira desatentas aos detalhes importantes, que nunca conhecem o conceito de elegância, de forma que se recusam a usar essa palavra, porque lhes é difícil encontrar para ela um significado apropriado.
De fato, o homem vulgar é pior não só pela cultura que não possui e pelos hábitos detestáveis, mas também pelo caráter. É vicioso e censurável em cada um de seus atos, e mesmo quando age corretamente, fá-lo pelas razões erradas. E é assim que, quando se relaciona com outros homens, aquele não pode agir senão passando por cenas ridículas, agredindo e magoando os demais.
A elegância dos homens consiste, diferentemente do que se pensa, não em conhecer regras de etiqueta, mas em existir suavemente. O homem elegante, isto é, aquele que há muito abandonou a vulgaridade, emociona-se, age e reage, sem contudo ser percebido em suas mudanças. Parece, aos vulgares, frio; mas há entre o frio e o elegante esta grande diferença, que é que o elegante reage visivelmente a tudo com muita sensibilidade.
Ora, se o vulgo não percebe suas reações, é somente porque está acostumado ao espalhafatoso, exibicionista e ridículo, que precisa fazer escândalos para chamar atenção a si. O homem elegante não reage com exageros, porque não se arroga tanta importância a ponto de invadir os momentos privados de todas as pessoas só para atrair para si a atenção alheia.
A elegância consiste, é claro, em existir suavemente, e é por isso que o homem elegante, ao receber a notícia da morte de sua família num jantar, contenta-se com um pequeno suspiro, um olhar tanto mais parado, uma torcidinha de nariz um pouco diferente. É por isso, e não pelo que se chama “gelidez”, que tudo o que se passa na vida do homem elegante é totalmente desconhecido a todos com quem ele convive; não porque ele se recusasse a falar, mas porque ninguém foi capaz de perceber os pequenos detalhes com que ele expressava suas reações. A vida elegante é uma vida solitária.