Poemas de Propércio (25, 26 e 27 do livro II)
Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 28 dUTC Maio dUTC 2009
Tradução livre, no meters, no poetics. Já que tenho de fazer isso para estudar pra prova, pelo menos algum leitor se beneficia. Clique no botão “leia o resto deste artigo” para ver os poemas traduzidos, verso a verso.
II, 25
Única e mais bela preocupação, nascida para o meu sofrimento,
já que minha sorte me tira o “vem, com frequência!”,
esta beleza se fará a mais conhecida por meio dos meus livrinhos,
com tua licença, Calvo; Catulo, com tua permissão.
O soldado idoso, depostas as armas, deita sozinho,
bois velhos se negam a levar os arados,
o navio apodrecido repousa na areia deserta
e no templo fica ocioso o antigo escudo guerreiro;
mas a mim nenhuma velhice afastará do teu amor,
quer venha eu a ser Titono, quer venha a ser Néstor!
Não foi melhor servir ao duro tirano
e gemer, feroz Perilo, em teu touro?
Também melhor foi enrijecer-se à visão da Górgona,
ainda que eu sofresse as aves do Cáucaso.
E no entanto persistirei. Com a ferrugem gasta-se a ponta
de ferro, e a pedra, com pouca água, repetidamente.
Mas sob acusação alguma se gasta o amor pela Senhora, o qual
permanece e, com o ouvido injusto, mantém as finanças.
Mais ainda, se é desprezado implora, e confessa ter errado
quando é lesado, e retorna ele mesmo contra a vontade dos pés.
Tu também, que te pavoneias no amor pleno,
crédulo!, nenhuma mulher mantém a palavra por muito tempo.
Ou alguém cumpre os votos no meio da tempestade,
quando frequentemente o navio flutua destruído no porto?
Ou exige o prêmio, estando a corrida incompleta,
antes da roda tocar sete vezes a linha de chegada?
No amor, os ventos favoráveis enganam, mentirosos;
se algo vem com tardança, o que vem é uma grande desgraça.
Tu, porém, enquanto isso, ainda que ela te queira bem,
mantém trancada, no peito tácito, a animação.
Pois que são sempre as palavras exageradas
que costumam prejudicar o ingênuo que obteve promessas.
Mesmo que te chame toda hora, lembra-te de ir uma vez só:
o que é visto demais não costuma durar muito.
Mas se os anos fossem agradáveis às meninas antigas
eu mesmo seria o que tu és: estou eu sendo vencido pelo tempo!
Porém, estes anos não mudaram os meus hábitos:
cada um saberá trilhar o seu próprio caminho.
Mas, vós que lembrais vossos trabalhos em muitos amores,
o quanto essa dor excrucia assim os vossos olhos!
Vistes a tenra menina em plena brancura,
vistes a morena, as duas cores nos perdem;
vistes caminhando uma moça de argiva figura,
vistes as nossas moças, as duas belezas raptam-nos;
e aquela, esteja nas vestes plebéias ou nas de vermelhão:
esta e aquela são um único caminho de feridas más.
Uma vez que uma só insônia traz o bastante para os teus olhinhos,
uma só mulher é mal o bastante para quem quer que seja.
II, 26
Vi a ti nos meus sonhos, minha vida, naufragado o navio,
mover as mãos cansadas no mar jônio,
confessar quaisquer mentiras que me tinhas contado
e não poder erguer os pesados cabelos da água,
como Hele, agitada pelas ondas vermelhas,
a quem um carneiro carregou no dorso macio.
O quanto temi que talvez o mar ganhasse teu nome,
e que o marinheiro chorasse, singrando a tua água!
O quanto, então, pedi a Netuno, o quanto ao irmão de Cástor,
e quanto a ti, Leucotéia, que agora és uma deusa!
Mas tu, erguendo com dificuldade das profundezas as palmas superiores,
prestes a morrer, repetidamente chamas meu nome.
Se talvez Glauco tivesse visto ali os teus olhinhos,
ter-te-ias tornado uma menina do mar jônio,
e as nereidas te censurariam por inveja,
a cândida Neséia, a cerúlea Cimotéia.
Mas vi um golfinho correr em teu auxílio,
o qual, acho, carregara antes a lira de Arião.
E eu mesmo já tentava lançar-me de um alto rochedo,
quando o medo dissipou-me tais visões.
Admirem-se agora porque uma tão bela menina
me serve, e porque sou considerado poderoso em toda a cidade!
Nem se voltarem Cambises e os rios de Croeso
ela dirá “poeta, levanta da minha cama”.
Pois, quando recita os meus versos, diz que odeia os ricos:
nenhuma menina cultua versículos tão religiosamente.
A confiança é muito útil no amor, a constância é muito útil;
quem pode dar muito, também pode amar muito.
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ou se a minha menina pensar em ir pelo imenso mar,
segui-la-ei e uma só brisa cuidará dos dois parceiros,
haverá uma só praia para os adormecidos e uma só árvore
como teto, e muitas vezes bebemos da mesma única água;
e uma só tábua poderá unir os amantes;
seja meu leito a proa, seja a popa.
Tudo suportarei, até o fim; mesmo que o feroz Euro ameace,
que o frígido Austro lance as velas num destino incerto;
e os ventos, quais sejam, que vexaram o infeliz Ulisses
e os mil navios gregos na praia Eubóica;
e vós, que movestes duas praias, quando o navio Argo
navegava, soltando uma pomba, no mar desconhecido.
Ela nunca sairá do alcance dos meus olhinhos,
mesmo que o próprio Júpiter incendeie o navio.
É certo que nós seremos lançados igualmente nus nas mesmas praias.
Ainda que uma onda me carregue, ou já te cubra a terra.
Mas Netuno não é tão cruel com o amor,
Netuno é igual a seu irmão Júpiter no amor:
Amimone é testemunha, pois carregava água e foi tomada nas planícies,
e a nascente de Lerna foi golpeada com o tridente.
Agora o deus satisfaz suas promessas com um abraço, mas para ele
a urna de ouro espalha águas divinas.
Orítia, raptada, disse não ao cruel Bóreas:
este deus doma as terras e os mares altos.
crê-me, a Cila seria mansa para mim, e
Caribde, que nunca para na vasta água alternando.
E os próprios astros para mim nunca serão escuros em treva alguma,
tão limpa estará Órion quanto limpa estará a Zeta de Auriga.
Pois se me couber repor a vida do teu corpo
esta morte não me será má.
II, 27
Mas vós, mortais, perguntais pela incerta hora fúnebre,
e qual o caminho pelo qual virá a morte;
procurais também as invenções fenícias no céu sereno,
qual seria a estrela conveniente ao homem, e qual a má!
Quer sigamos os partas a pé, quer com uma frota persigamos os bretões,
são cegos os perigos do caminho da terra e do mar;
outra vez, choramos também que a nossa cabeça seja ameaçada pela agitação,
quando Marte mistura as mãos dúbias de ambos os lados;
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além disso, o fogo nas casas e as ruínas nas casas,
e não há taças negras que subam aos teus lábios.
Só o amante sabe quando morrerá e de onde
virá a morte, e este não teme o sopro de Bóreas ou as armas.
E, ainda que se sente ao remo, remador no Estige,
que perceba também as tristes velas da nau infernal,
se já a brisa lhe lembra da menina chamando,
ele refará o caminho que nenhuma lei prevê.