Rafael Falcón em Perspectiva

Porque em perspectiva tudo fica mais bonito

Arquivo de Outubro, 2008

Epistle to a Lady, On Characters of Women

Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 30 dUTC Outubro dUTC 2008

Toma um pouco de Pope aí:

In men, we various ruling passions find;
In women, two almost divide the kind;
Those, only fix’d, they first or last obey,
The love of pleasure, and the love of sway.

Aos homens mil paixões vês governar;
Nas moças, duas disputam lugar;
Pois elas, cá e ali, dão preferência
Ao amor do Prazer, ou da Influência.

Toma mais:

Pleasures the sex, as children birds, pursue,
Still out of reach, yet never out of view;
Sure, if they catch, to spoil the toy at most,
To covet flying, and regret when lost:

Menina atrás de aves, quer o prazer vão,
Fora de alcance, mas não da visão;
Se o pega, para o brinquedo estragar,
Quer asas; chora quando cai no mar.

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O Criativismo

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 26 dUTC Outubro dUTC 2008

O criativismo é a escola de pensamento segundo a qual há coisas que o homem sabe, há coisas que saberá e, fora desses limites, há tão-somente coisas que ele inventará. Existe algo fora do conhecimento do homem, mas nada fora da sua imaginação.

Muitas disciplinas são criativistas avant la lettre, tradicionalmente: a filosofia, a literatura, a linguagem de programação, a lógica. Se é assim é porque a sabedoria intuitiva é grande no homem. Cedo as ciências percebem que tirar conclusões a partir de dados seria impossível sem o exercício da imaginação.

Entretanto, alguns autores já começaram a radicalizar o uso da imaginação em suas disciplinas, e é por necessidade histórica (aham) que surge o criativismo como doutrina, método e cultura.

Os precursores do criativismo são poucos, mas valiosos. Como referência notável indico Alexandre Soares Silva, que vem inventando partidas de xadrez históricas, cartas de filósofos e poemas de autores consagrados. Como guru e ideal, indico Olavo de Carvalho, cuja compreensão do papel da criatividade nas ciências levou-o ao estado de beatitude criativista: a real-criatividade. O Prof. Olavo simplesmente conseguiu o poder de imaginar a realidade. Reflita.

O criativismo é a doutrina pela qual todo mundo que não acredita em verdade tem de ser avaliado. Quem não crê em verdade, mas produz qualquer coisa, é criativista. Contudo, nem todo criativista duvida da verdade; muitos crêem nela, e até a procuram em suas áreas de formação. Esses são os gurus criativistas, mestres da doutrina, únicos capazes de passar pela iniciação que os leva ao estado de real-criatividade.

Para a Wikipédia, deixo uma última informação: o criativismo foi pela primeira vez anunciado como corpo coerente de princípios no dia 27 de outubro de 2008, no blog de um estudante da USP chamado Rafael Falcón. Quem quiser ver o final da história, que pague; então verá.

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Piadas de Orkut

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 17 dUTC Outubro dUTC 2008

Fazer piada no Orkut é um jeito eficiente de compreender o humor na vida real. Fica tudo registrado, você pode ler e reler as piadas de que as pessoas gostaram, analisar suas reações, etc.

E assim você entende que fazer piada é mesmo uma piada, quer dizer, o humor não é apenas o gênero mais baixo de produção humana, é também o mais degradante. Para quem conta a piada e para quem ri dela.

Minha conclusão é que piadas não podem ser feitas no Orkut, onde podem ser relidas e desmascaradas. Têm de ser contadas ao vivo, de forma rápida e inesperada, para que o riso venha rápido e forte; e em seguida têm de ser esquecidas, como os agradáveis chuviscos no verão, passando tão velozes que nem lembramos que estamos contraindo pneumonia. Tchau.

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Pragmatismo

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 10 dUTC Outubro dUTC 2008

Todo mundo na Universidade é pragmático. Todo mundo no mundo é pragmático. Dizem “vamos ao que interessa”, afinal, o que importa é o que interfere na matéria, no palpável, né?

Daí, veja você, qualquer filósofo que tenha escrito um livro enorme justificando ponto por ponto todas as suas afirmações só está querendo dificultar a leitura. Bom mesmo é escrever que nem o Nietzsche, falando o que acha e pronto, porque é isso o que interessa. Os critérios para julgar a validade do seu pensamento hão de ser sempre as ideologias e axiologias da moda, e não essa porcaria totalmente superestrutural de “lógica”.

Pode gastar seu tempo e seu suor examinando as formas mais verdadeiras de alcançar o conhecimento, mas assim que você publicar a sua bíblia virão milhares de idiotas repetindo muito originalmente a expressão mais conhecida do complexo discurso universitário:

não concordo…

Como assim não concorda? Você encontrou algum erro na demonstração?

não, não… só achei muito [substitua por machista/conservador/categórico/radical/simplista...].

Goddamit, você nem considera, tipo assim, que talvez, já que ele demonstrou as teses corretamente, esteja mais correto ser machista/conservador/categórico/radical/simplista?

*pessoa sai andando horrorizada com a sua fraqueza espiritual*

ai, ele é tão manipulável!…

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Neologismos

Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 9 dUTC Outubro dUTC 2008

Como sou muito melhor que você, decidi que passarei a cunhar palavras para expressar meus elevadíssimos conceitos filosófico-bloguísticos. E o primeiro termo será “modernice”.

Tipo, quando você vê um baiano fazendo merda de baiano, chama de baianice. Quando vê o Bóris Casoy ou seja lá como se escreve isso, chama de tosquice. Quando vê um neonazista, chama de babaquice. Quando vê um carioca, eh, existindo, fala que é carioquice.

Da mesma maneira, chamaremos de modernice os mais diversos fenômenos, contanto que possuam o sema /moderno/ e sejam coisa de gente ridícula. O campo de abrangência é extenso: vai de fenômenos absolutamente políticos (serviço militar obrigatório, por exemplo, ou educação em massa) até pessoalidades das mais toscas (tipo quando alguém usa expressões como “as profundezas do meu ser” ou “a incomunicabilidade do estar-aí”).

Para verificar se está vendo modernices, basta fazer o teste: modernices sempre são totalmente inimagináveis na Antigüidade.

Imagine Aristóteles falando das profundezas do ser dele ou das contradições internas da linguagem. Imagine Cícero comparando um político de Roma (e até ele mesmo!) com um gladiador, positivamente. Imagine Virgílio gastando trinta páginas da Eneida em enjoadíssimos diálogos com o leitor, porque acha bonitinho ser metadiscursivo.

Referências das modernices citadas, em fenômenos reais: respectivamente Deleuze, Lula (cf. qualquer das milhares de comparações que ele já fez de política com futebol) e Clarice Lispector.

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Eliot em Nova Perspectiva

Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 1 dUTC Outubro dUTC 2008

Alguns resultados da tradução que ando fazendo do Four Quartets. O que segue é um trecho da parte I de Burnt Norton. Go reader go:

Passos ecoam na memória,
Descem a passagem que não seguimos
Para a porta que nunca abrimos
Até o jardim de rosas. Ecoa assim
Meu verso, em ti.
                        Mas por que razão
Incomodar o pó numa cesta de pétalas de rosa
Eu não sei.
                 Outros ecos
Habitam o jardim. Seguiremos?
Já, disse o pássaro, achem-nas, achem,
Virando a esquina. Pelo portão inicial,
Até o mundo inicial, seguiremos
A armadilha do tordo? Até o mundo inicial,
Lá elas estavam, austeras, invisíveis,
Movendo-se por si, sobre as folhas mortas,
No calor de Outono, pelo ar vibrante,
E o pássaro chamou, já respondendo
A inaudita música oculta na alameda,
E o inédito olhar cruzou-se, pois as rosas
Aparentavam flores sendo olhadas.

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