Rafael Falcón em Perspectiva

Porque em perspectiva tudo fica mais bonito

Arquivo de Julho, 2008

How do people think

Publicado por Rafael Falcón em Segunda-feira, 28 dUTC Julho dUTC 2008

Pessoas dizem “você precisa se soltar” ou “ninguém é perfeito” ou ainda “ninguém pode ter tudo”. Dizem “crianças precisam de amigos”, “mentira tem perna curta”, etc. etc. E a questão aqui é: por quê? Qual é o axioma orientador de tantas normas, tantas regras? Quero dizer, não é nada difícil conceber que um mundo sem regras seria desagradável; mas isso não faz com que seja necessário viver num mundo organizado por regras incoerentes e arbitrárias.

Sei que estou chovendo no molhado, é só que às vezes preciso falar sozinho para não ficar louco. Quando fico longe da USP por muito tempo, realmente tenho a impressão de que Aristóteles era um pervertido e esse negócio de lógica é resultado de uma inspiração demoníaca. “Você precisa se soltar”, eles dizem; eu digo que, se tudo o que é raro é caro e se um cavalo barato é raro, ora bolas, um cavalo barato é caro.

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O Vampiro Luí (poema infantil)

Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 26 dUTC Julho dUTC 2008

No antigo país de Rozenzenvóizem
Existe um castelo todo de pedra,
E dizem que à noite se ouvem mil vozes,
mil vozes!
- Vampiros conversam, e taças se quebram.

Mas lá na outra torre, bem longe da festa
Um outro vampiro está só pensando:
Pensando, quem sabe, na velha floresta,
floresta!
Mas veste sua capa e então sai voando.

Vampiro Luí, perdido a voar,
Seu rosto branquinho avançando no ar…
Vampiro Luí, só quer encontrar
Seu mestre e amigo, o Vampiro Lestá.

Quando ele coloca a capa de Stinj
Recita o Feitiço das Trevas, e então
A lua não sabe o que ali a atinge,
atinge!
Luí, é você? Ou será um avião?

Vampiro Luí, vá aonde quiser,
Quem voa nas nuvens não deve correr;
Vampiro Luí, sua capa há de ser
Suas asas, sua força, magia e poder.

Salamandras, silfos, sereias e mais:
Gnomos, anjos, sombras abissais!

Poderes das trevas, último suspiro!
Visto agora a minha capa de vampiro!

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Mr. Mistoffelees

Publicado por Rafael Falcón em Segunda-feira, 14 dUTC Julho dUTC 2008

And we all say: OH!
Well I never!
Was there ever
A cat so clever
As magical Mr. Mistoffelees?

A única adaptação boa de Andrew Lloyd Webber em Cats.

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Aurora lacrimosa (continuação de O que há dormente)

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 6 dUTC Julho dUTC 2008

A morte é um lugar escuro porque lá só se podem usar dois sentidos: a memória e o medo. É um poço em que se ouvem ecoar sibilos e vogais redondas, cada vez mais entusiasmadamente sendo pronunciados por homens encapuzados que de repente já são monstros enormes ruminando logo acima… Ou foi isso o que pensei antes de notar que os sibilos e ruminares haviam se transformado em buzinas e sons de passos da avenida, que eu escutava de um beco qualquer a dois quarteirões do prédio em que tudo acontecera. Por uma ou duas horas, eu simplesmente aproveitei a sensação maravilhosa de estar deitado naquele beco, sem amarras em lugar algum do meu corpo, sem sombras de criaturas desconhecidas aproximando-se de mim. Em algum momento eu decidi levantar e, convencido de estar livre, reavaliar o que me acontecera: minha barba estava feita, minhas roupas perfumadas; teria eu simplesmente sonhado com tudo aquilo?

Só havia um jeito de saber. Primeiro, fui a uma lanchonete suja e pedi um hambúrguer, que inevitavelmente veio pingando gordura e catchup. Fiquei algum tempo olhando para aquela vermelhidão fedorenta, aquele óleo saturado escorrendo pelos meus dedos e embrulhando meu estômago. O hambúrguer atingia alguma memória inconsciente e, embora eu tentasse lembrar o que era, às vezes meus olhos se fechavam com força e eu queria com todas as forças esquecer seja lá o que for que não estava lembrando. Comi o maldito hambúrguer e saí para fazer o que tinha de ser feito. O prédio estava como em minhas lembranças, com a portinha marrom exatamente no lugar. Pus minha mão na maçaneta e pensei: estaria ela ainda lá dentro? Sorriria para mim ao entrar num corredor? Eu a seguiria novamente? Eu já não a estava seguindo? Mas, principalmente, a pergunta que nunca havia sido respondida: ela queria que eu a seguisse? Girei a maçaneta. Abriu-se a porta, e algo dentro de mim se fechava.

Explorei três andares inteiros até encontrar, no último apartamento do terceiro andar, o saguão em que tudo aconteceu. Na escuridão, aquele lugar parecia não ter fim. Acendi as mesmas cinco luzes sob as quais o ruído monstruoso me atormentara. A claridade intensa iluminou o aposento vazio; meu coração palpitava… Tinham tirado tudo. Os braceletes, os artefatos, tudo! Só havia velas gastas, manchas escuras no chão e alguma coisa escrita em – eu repetia para mim mesmo – tinta vermelha num canto da sala. Aproximei-me para ler a inscrição, que dizia na primeira linha “vanitas vanitatum omnia vanitas”. Inútil. A segunda era “quae sursum sunt sapite non quae super terram”, e tinha a indicação do lado: Colossenses, 3:2. Eu conhecia a passagem: “pensa nas coisas que estão no alto, e não nas que estão sobre a terra”, algo assim. A terceira linha dizia “saluto vos ego Tertius qui scripsi epistulam in domino”. Inútil, inútil e inútil.

Eu já estava caminhando em direção à porta, quando um pensamento irrompeu entre dois passos e quase me fez tropeçar no ar. “Pensa nas coisas”, eu murmurei, “que estão no alto, e não nas que estão sobre a terra”. Era a única citação com referência, a única que eu poderia rastrear sem ter decorado a Bíblia em latim. Aquilo havia sido escrito para que eu entendesse. Olhei para cima. As cinco luzes cegaram-me, exatamente como da última vez. Tirei meu isqueiro do bolso e peguei uma das velas jogadas no chão. Acendi a vela e apaguei as luzes… e pude vê-la. Era ela. Mas dessa vez não sorria. Dois metros acima da minha cabeça, ela permanecia suspensa, como um anjo da morte pairando sobre mim com as asas abertas. Pálida, nua, com sangue seco espalhado por todo o corpo. As manchas escuras no chão eram a sua vida, que se perdeu gota a gota pela força da gravidade… Se a morte for mesmo um poço, eu me perguntei, será um horrível poço de sangue alimentado pelo sofrimento de moças como essa? Atormentava-me, cada vez mais, o pensamento de que, em meio àquela cerimônia, eu não fora capaz de dissociar seus inocentes gritos de dor da ladainha sanguinária dos fanáticos. Eu não podia deixar de pensar que ela, pobre e bonita moça, nunca teria o alívio de ouvir aquela sinfonia satânica se transformar em buzinas e sons de passos da avenida…

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Contradicta

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 4 dUTC Julho dUTC 2008

Contradigo-me só em parte, porque Dicta&Contradicta é uma boa revista, mas nem tanto. O texto de Ruy Goiaba é bom como não poderia deixar de ser, mas não achei dos melhores (nada supera aquele sobre o concretismo); o artigo de Roger Kimball sobre Hayek é excelente; os demais textos são, em geral, mal-escritos e mal-pensados.

Para mim, contudo, uma feliz surpresa foram os textos de Martim Vasques da Cunha, o chefão do bando, que eu não conhecia e que me devolveu o vigor da leitura. Ótimos textos, ótimo raciocínio, erudição incontestável, força de espírito que no mais das vezes falta aos demais. Parabéns, Martim Vasques da Cunha. Seu nome fica aqui registrado como um dos raríssimos grandes jornalistas vivos no Brasil.

Edit: não fiz referência à aula de Bruno Tolentino, que é excelente, e às análises de Pedro Sette Câmara na Anatomia do Poema, que no geral são muito aproveitáveis. Falha nossa.

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Adolescentes

Publicado por Rafael Falcón em Terça-feira, 1 dUTC Julho dUTC 2008

Quase todas as coisas bonitas ou verdadeiras que pensei ou escrevi durante a adolescência foram intuídas, quero dizer, pensadas meio inconscientemente. Os meus pensamentos sobre os quais eu tinha mais domínio, mais compreensão consciente, foram em geral desprezíveis e perfeitamente dignos de uma pessoa medíocre.

Fico pensando que, se eu soubesse disso naquela época, poderia ter-me concentrado nas minhas intuições, em vez de ficar apenas insistindo nas minhas idéias aparentemente geniais que, no entanto, só pareciam assim porque ninguém ao redor pensava igual.

O que estou querendo dizer é que não acho que adolescentes são naturalmente burros, na verdade acho que são tão burros quanto o restante, mas uma coisa que faz diferença à medida que crescemos é entrar em contato com gente mais inteligente que nós. Isso nos dá senso de proporção, mostra com mais verdade o ponto de que devemos passar se quisermos ser alguma coisa.

Em suma, todas as adolescências seriam mais bem-aproveitadas se ficássemos trancados no quarto lendo Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Maquiavel e T.S. Eliot, em vez de ficarmos saudavelmente na escola convivendo com Pedrão, Luizinho, Maria João e Francyelli.

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