A morte é um lugar escuro porque lá só se podem usar dois sentidos: a memória e o medo. É um poço em que se ouvem ecoar sibilos e vogais redondas, cada vez mais entusiasmadamente sendo pronunciados por homens encapuzados que de repente já são monstros enormes ruminando logo acima… Ou foi isso o que pensei antes de notar que os sibilos e ruminares haviam se transformado em buzinas e sons de passos da avenida, que eu escutava de um beco qualquer a dois quarteirões do prédio em que tudo acontecera. Por uma ou duas horas, eu simplesmente aproveitei a sensação maravilhosa de estar deitado naquele beco, sem amarras em lugar algum do meu corpo, sem sombras de criaturas desconhecidas aproximando-se de mim. Em algum momento eu decidi levantar e, convencido de estar livre, reavaliar o que me acontecera: minha barba estava feita, minhas roupas perfumadas; teria eu simplesmente sonhado com tudo aquilo?
Só havia um jeito de saber. Primeiro, fui a uma lanchonete suja e pedi um hambúrguer, que inevitavelmente veio pingando gordura e catchup. Fiquei algum tempo olhando para aquela vermelhidão fedorenta, aquele óleo saturado escorrendo pelos meus dedos e embrulhando meu estômago. O hambúrguer atingia alguma memória inconsciente e, embora eu tentasse lembrar o que era, às vezes meus olhos se fechavam com força e eu queria com todas as forças esquecer seja lá o que for que não estava lembrando. Comi o maldito hambúrguer e saí para fazer o que tinha de ser feito. O prédio estava como em minhas lembranças, com a portinha marrom exatamente no lugar. Pus minha mão na maçaneta e pensei: estaria ela ainda lá dentro? Sorriria para mim ao entrar num corredor? Eu a seguiria novamente? Eu já não a estava seguindo? Mas, principalmente, a pergunta que nunca havia sido respondida: ela queria que eu a seguisse? Girei a maçaneta. Abriu-se a porta, e algo dentro de mim se fechava.
Explorei três andares inteiros até encontrar, no último apartamento do terceiro andar, o saguão em que tudo aconteceu. Na escuridão, aquele lugar parecia não ter fim. Acendi as mesmas cinco luzes sob as quais o ruído monstruoso me atormentara. A claridade intensa iluminou o aposento vazio; meu coração palpitava… Tinham tirado tudo. Os braceletes, os artefatos, tudo! Só havia velas gastas, manchas escuras no chão e alguma coisa escrita em – eu repetia para mim mesmo – tinta vermelha num canto da sala. Aproximei-me para ler a inscrição, que dizia na primeira linha “vanitas vanitatum omnia vanitas”. Inútil. A segunda era “quae sursum sunt sapite non quae super terram”, e tinha a indicação do lado: Colossenses, 3:2. Eu conhecia a passagem: “pensa nas coisas que estão no alto, e não nas que estão sobre a terra”, algo assim. A terceira linha dizia “saluto vos ego Tertius qui scripsi epistulam in domino”. Inútil, inútil e inútil.
Eu já estava caminhando em direção à porta, quando um pensamento irrompeu entre dois passos e quase me fez tropeçar no ar. “Pensa nas coisas”, eu murmurei, “que estão no alto, e não nas que estão sobre a terra”. Era a única citação com referência, a única que eu poderia rastrear sem ter decorado a Bíblia em latim. Aquilo havia sido escrito para que eu entendesse. Olhei para cima. As cinco luzes cegaram-me, exatamente como da última vez. Tirei meu isqueiro do bolso e peguei uma das velas jogadas no chão. Acendi a vela e apaguei as luzes… e pude vê-la. Era ela. Mas dessa vez não sorria. Dois metros acima da minha cabeça, ela permanecia suspensa, como um anjo da morte pairando sobre mim com as asas abertas. Pálida, nua, com sangue seco espalhado por todo o corpo. As manchas escuras no chão eram a sua vida, que se perdeu gota a gota pela força da gravidade… Se a morte for mesmo um poço, eu me perguntei, será um horrível poço de sangue alimentado pelo sofrimento de moças como essa? Atormentava-me, cada vez mais, o pensamento de que, em meio àquela cerimônia, eu não fora capaz de dissociar seus inocentes gritos de dor da ladainha sanguinária dos fanáticos. Eu não podia deixar de pensar que ela, pobre e bonita moça, nunca teria o alívio de ouvir aquela sinfonia satânica se transformar em buzinas e sons de passos da avenida…