O que há dormente (um conto de horror em quatro parágrafos)
Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 14 dUTC Junho dUTC 2008
Quando eu estava nos meus dez anos, meu pai gostava de me ler O Corvo de Allan Poe, na sexta-feira de cada semana, que era quando eu podia ficar acordado até mais tarde. Sentava-se à minha cama e dizia que primeiro eu o ouviria em inglês, que eu não compreendia bem, e depois em português, que fui descobrir ser uma tradução de Fernando Pessoa. Ficou-me gravado um verso em inglês, que por alguma razão despertava um terrível medo do desconhecido na minha mente monoglota; talvez os sons, talvez as poucas palavras que eu entendia, talvez as duas coisas juntas… era and the lamplight o’er him streaming throws his shadow on the floor. Cinco anos depois, no leito de morte de meu pai, perguntei-lhe como era aquele verso na tradução que ele me lia. Respondeu baixinho, com um sorriso no canto esquerdo da boca, com o misterioso olhar que ele tinha ao recitar aqueles versos: e a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais… calou-se em seguida, e nunca terminou de recitar a estrofe. Era sexta-feira, e eu podia ficar acordado até mais tarde…
Foi com vinte anos que eu comecei a superar a falta de meu pai. Meu irmão caçula me conseguiu um bom emprego no centro, onde as coisas acontecem, e eu pude alugar um apartamento só meu. Um grande avanço na minha vida, dizia minha mãe, agora eu estava por minha própria conta. A isso ela chamava independência: a isso eu chamei solidão. Por alguma razão, desde criança eu me sentia observado, ainda que nunca nenhum ser humano saudável tenha olhado para mim com mais interesse que para um pente usado. Talvez por isso, todos os dias eu saía para trabalhar e, na volta, como não tivesse nenhuma grande emoção a esperar por mim no apartamento vazio, observava também a tudo. Mas observava principalmente as pessoas ao meu redor, sempre tão concentradas em suas tarefas que nem cogitariam que alguém na mesma rua pudesse estar prestando atenção nelas…
Era uma quinta-feira, noite escura, quando eu parei numa esquina para observar uma moça solitária que pisava delicadamente. Gostei-lhe das cores sóbrias, dos poucos apetrechos; à medida que ela se aproximava, pude ver-lhe melhor o rosto, que era suave como os seus passos, e os olhos, escuros mas faiscantes. Não houve jeito: segui-a. Virou três esquinas seguidas, como se me provocasse; só me atiçou mais ainda, e pus todas as minhas atenções em não a perder de vista. Finalmente, entrou num beco e passou por uma portinha marrom. Era um prédio velho, pensei, velho demais para uma moça tão elegante. Olhei para a porta, então para a rua; não podia invadir a casa de uma pessoa, é crime. A velha sensação de estar sendo observado ficou ainda mais forte. Mas lembrei que por um instante, antes de virar a esquina, foi como se a moça me visse… como se sorrisse para mim. Ela queria que eu a seguisse? Era o (hipotético) sorriso um convite? Talvez: se a porta estivesse destrancada, seria o sinal definitivo. Pus a mão na maçaneta e girei. Abriu-se a porta, e também um pequeno sorriso no meu rosto…
Não sei por quanto tempo fiquei preso naquele saguão. Quatro meses, dois anos? Tudo o que eu retinha na memória era a porta se abrindo, o corredor à minha frente e uma dor lancinante; depois, o saguão malcheiroso, as velas e artefatos metálicos por todo lado. Prenderam-me no chão, nu, com uns braceletes de metal nos meus braços e pernas, que permaneciam abertos. Um quinto “bracelete” no meu pescoço impedia que eu levantasse a cabeça para ver melhor o chão. Às vezes me davam de comer, e era desagradável comer sempre deitado; naquela noite, como em outras, era uma vitamina horrível. Reuniram-se ao meu redor, como sempre; no teto, cinco luzes muito intensas foram acesas, e eu tive de fechar os olhos. Começaram a rezar uma ladainha tenebrosa, sibilando por entre os dentes e urrando vogais redondas. Aquela ladainha era diferente, estavam mais empolgados. Súbito, um ruído novo chamou a minha atenção: havia algo ruminando a um metro e meio do chão… em cima de mim. O som parecia ir lentamente se aproximando do meu corpo, e eu não conseguia abrir os olhos por causa das luzes logo em cima, até que me lembrei: and the lamplight o’er him streaming throws his shadow on the floor… Virei a cabeça para o lado e olhei o chão, em que as cinco luzes projetavam a sombra da coisa. Era esguia e tinha uma cabeçorra estranha, com o que pareciam ser três chifres, e não pude mais olhar. Fosse o que fosse, não era humana. Ela ruminava acima do meu rosto. Eu estava apavorado. Pensei em meu pai:
E a minh’alma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!
E o ruído sumiu no silêncio.
O Periquito disse
eu não entendi.
(não, eu não vou perguntar mas . . . cadê os outros três parágrafos??)
(embora também não tenha entendido isso =p)
vcs vão jantar em casa hoje também?
Rafael Falcón disse
Hoje pode rolar pizza, às oito e meia s’il vous plait.
Os outros três parágrafos vão chegar, ora. Vá esperando, é um por vez.
(e como você não entendeu o conto? não tem nada de obscuro)
Emo disse
Now everything makes sense to me!
ps: so i´ll hit your door . . .
pps: se falar que não foi para mim, me jogo da janela — e do seu quarto! . . .
Day disse
Agora tá ficando muito bom!
Continua! Continua!!
Day disse
Muito bom, muito bom mesmo!
Depois converso com vc..
hehe
Rosemary disse
Os versos no final são só uma variação do leitmotiv do conto ou tem alguma origem especial?
Há uma intenção musical em todo o conto — o que fica explicitado pela frase final, além das rimas — mas qual a relação entre os ritmos e a melodia que o conto cria com o ruído da besta?
Sobretudo se for considerado que todo o conto pode ser lido como uma cadeia de causas (no final, apenas sugeridas) que levam o protagonista a ela . . . A música o leva ao ruído e o ruído o leva depois ao silêncio . . . E é justamante nessa última passagem que a musicalidade se torna mais intensa com a retomada dos versos em inglês e a aparição algo hermética e inexplicada dos versos finais extremamente melódicos. . .
And last but not least: ninguém dorme no conto — qual o sentido do título?
Rafael Falcón disse
Detesto ser estraga-prazeres, e jamais tentaria destruir uma promissora análise sobre a musicalidade em qualquer dos meus contos – mas pessoalmente eu não gosto muito de bagunçar os gêneros. Nesse conto em especial, não passou pela minha cabeça qualquer associação com música: não há instrumentos musicais, sons puros ou melodias em todo o texto, exceto pela ladainha religiosa no final. Não obstante, a ladainha é mais ruído que música.
Você disse muito bem sobre o conto ser uma cadeia de causas, mas acho que foi meio míope quando tomou por efeito último dessas causas uma ação do protagonista. As causas atingem uma dimensão maior, em absoluto, e muitas de suas conexões estão meramente implícitas – esse conto era pelo menos três vezes maior, e por aí se vê que agora há várias brechas no seu decurso.
Os versos do fim nada têm de hermético – aliás, esse conto não tem um pingo de hermetismo. São os dois últimos versos de The Raven, na tradução de Pessoa. O verso de que o protagonista gostava desde criança é o antepenúltimo do poema. Esses dois versos são justamente os que não foram pronunciados pelo seu pai antes de morrer.
Quanto ao título, ele pretende sugerir uma pista para desvendar o conto. O que posso dizer para tranqüilizar é que o próprio protagonista provavelmente não chegaria a um resultado claro quanto a ele. É uma pista, não uma resposta.
Sua leitura é interessante, e eu de minha parte gostaria mais dela se não se focasse em música… mas certamente existe um papel musical no conto, como em toda prosa que já escrevi na vida, na medida em que existe um aspecto musical na poesia e na linguagem por extensão. O que gosto de pensar é isto: que o fundamental numa análise musical do conto não é a música, mas a poesia.
Espero mais.
Matheus disse
Bem… Há no todo algo que me lembra muito a Lovecraft. Aquele apelo ao aparentemente normal que se converte em aparentemente sobrenatural… Aparentemente porque, quem nos garante que aquilo nao seja completamente natural? E o tipo de medo utilizado, parece mais um apelo ao horror primordial do que ao horroroso monstro… Certo é que ele aparece, mas é apenas sugerido pelas sombras de um verso.
Rafael Falcón disse
Matheus, me comparar com Lovecraft é inaceitável, calma lá.
Acho que você tateou uma área fundamental, que é a subjetividade e o seu papel no horror. O que aconteceu de fato? É fácil considerar que desde o começo a vida dele possuía um elemento sobrenatural (a sensação de estar sendo observado atesta isso), ou seja, tudo era aparentemente normal, sendo em verdade sobrenatural. E aí há dúzias de perguntas. O pai sabia? Qual o seu papel nisso?
Mas essa interpretação, se lançada sobre si mesma, leva a outra: que tudo foi aparentemente sobrenatural, mas na verdade não passava de eventos normais. Não estaria o protagonista desde o princípio disposto a acreditar que sua vida continha algo de sobrenatural? Seria uma predisposição causada pelo seu imaginário infantil influenciado por seu pai e suas leituras de Poe?
Tudo fica por conta da primeira pessoa, que nos põe em contato com um relato autobiográfico e, por isso mesmo, nada fundamentado.
drayfine disse
“Tudo fica por conta da primeira pessoa, que nos põe em contato com um relato autobiográfico e, por isso mesmo, nada fundamentado” e mais: nos põe num estado angustiante, porque ficamos presos à visão do personagem assim como o personagem fica preso ao chão.
Acho que o efeito criado pela primeira pessoa no conto de horror é fundamental para a construção do clima assustador.
Sempre fica artificial quando se tem um narrador onipresente que te apresenta as cadeias de causas. A apresentação das causas te traz segurança e conforto, e acho que é exatamente isso que um bom conto de horror quer evitar, certo?
Bem, acho que foi por isso que Drácula fez tanto sucesso…
Rafael Falcón disse
Engraçado você ter feito essa afirmação tão radical sobre a primeira pessoa, Day, porque todos os contos do Poe (um mestre do horror, que fiz questão de homenagear) são em primeira pessoa.
Prender o leitor à narrativa de um protagonista humano, frágil, indefeso e ignorante cria um tipo específico de medo, na minha opinião, que se refere ao desconhecido. Você não sabe, o personagem também não, logo vocês ficam sem saber o que esperar. As causas comparecem, mas de maneira implícita, recortadas pelo olhar de um personagem que não sabe que detalhes são importantes, o que vai desencadear o quê.
Mas talvez seja possível criar um outro tipo de medo com a terceira pessoa. Cabe pensar sobre o terror que podem inspirar as coisas que conhecemos, contanto que não as entendamos ou que não possamos nada contra elas. Well, just trying…
Uma história de horror em três contos « Rafael Falcón em Perspectiva disse
[...] O que há dormente II. Aurora lacrimosa III. [...]