Quando eu estava nos meus dez anos, meu pai gostava de me ler O Corvo de Allan Poe, na sexta-feira de cada semana, que era quando eu podia ficar acordado até mais tarde. Sentava-se à minha cama e dizia que primeiro eu o ouviria em inglês, que eu não compreendia bem, e depois em português, que fui descobrir ser uma tradução de Fernando Pessoa. Ficou-me gravado um verso em inglês, que por alguma razão despertava um terrível medo do desconhecido na minha mente monoglota; talvez os sons, talvez as poucas palavras que eu entendia, talvez as duas coisas juntas… era and the lamplight o’er him streaming throws his shadow on the floor. Cinco anos depois, no leito de morte de meu pai, perguntei-lhe como era aquele verso na tradução que ele me lia. Respondeu baixinho, com um sorriso no canto esquerdo da boca, com o misterioso olhar que ele tinha ao recitar aqueles versos: e a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais… calou-se em seguida, e nunca terminou de recitar a estrofe. Era sexta-feira, e eu podia ficar acordado até mais tarde…
Foi com vinte anos que eu comecei a superar a falta de meu pai. Meu irmão caçula me conseguiu um bom emprego no centro, onde as coisas acontecem, e eu pude alugar um apartamento só meu. Um grande avanço na minha vida, dizia minha mãe, agora eu estava por minha própria conta. A isso ela chamava independência: a isso eu chamei solidão. Por alguma razão, desde criança eu me sentia observado, ainda que nunca nenhum ser humano saudável tenha olhado para mim com mais interesse que para um pente usado. Talvez por isso, todos os dias eu saía para trabalhar e, na volta, como não tivesse nenhuma grande emoção a esperar por mim no apartamento vazio, observava também a tudo. Mas observava principalmente as pessoas ao meu redor, sempre tão concentradas em suas tarefas que nem cogitariam que alguém na mesma rua pudesse estar prestando atenção nelas…
Era uma quinta-feira, noite escura, quando eu parei numa esquina para observar uma moça solitária que pisava delicadamente. Gostei-lhe das cores sóbrias, dos poucos apetrechos; à medida que ela se aproximava, pude ver-lhe melhor o rosto, que era suave como os seus passos, e os olhos, escuros mas faiscantes. Não houve jeito: segui-a. Virou três esquinas seguidas, como se me provocasse; só me atiçou mais ainda, e pus todas as minhas atenções em não a perder de vista. Finalmente, entrou num beco e passou por uma portinha marrom. Era um prédio velho, pensei, velho demais para uma moça tão elegante. Olhei para a porta, então para a rua; não podia invadir a casa de uma pessoa, é crime. A velha sensação de estar sendo observado ficou ainda mais forte. Mas lembrei que por um instante, antes de virar a esquina, foi como se a moça me visse… como se sorrisse para mim. Ela queria que eu a seguisse? Era o (hipotético) sorriso um convite? Talvez: se a porta estivesse destrancada, seria o sinal definitivo. Pus a mão na maçaneta e girei. Abriu-se a porta, e também um pequeno sorriso no meu rosto…
Não sei por quanto tempo fiquei preso naquele saguão. Quatro meses, dois anos? Tudo o que eu retinha na memória era a porta se abrindo, o corredor à minha frente e uma dor lancinante; depois, o saguão malcheiroso, as velas e artefatos metálicos por todo lado. Prenderam-me no chão, nu, com uns braceletes de metal nos meus braços e pernas, que permaneciam abertos. Um quinto “bracelete” no meu pescoço impedia que eu levantasse a cabeça para ver melhor o chão. Às vezes me davam de comer, e era desagradável comer sempre deitado; naquela noite, como em outras, era uma vitamina horrível. Reuniram-se ao meu redor, como sempre; no teto, cinco luzes muito intensas foram acesas, e eu tive de fechar os olhos. Começaram a rezar uma ladainha tenebrosa, sibilando por entre os dentes e urrando vogais redondas. Aquela ladainha era diferente, estavam mais empolgados. Súbito, um ruído novo chamou a minha atenção: havia algo ruminando a um metro e meio do chão… em cima de mim. O som parecia ir lentamente se aproximando do meu corpo, e eu não conseguia abrir os olhos por causa das luzes logo em cima, até que me lembrei: and the lamplight o’er him streaming throws his shadow on the floor… Virei a cabeça para o lado e olhei o chão, em que as cinco luzes projetavam a sombra da coisa. Era esguia e tinha uma cabeçorra estranha, com o que pareciam ser três chifres, e não pude mais olhar. Fosse o que fosse, não era humana. Ela ruminava acima do meu rosto. Eu estava apavorado. Pensei em meu pai:
E a minh’alma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!
E o ruído sumiu no silêncio.