Rafael Falcón em Perspectiva

Porque em perspectiva tudo fica mais bonito

Arquivo de Junho, 2008

Blogando à Hannibal

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 29 dUTC Junho dUTC 2008

É o canibal, não o cartaginês. Bom, imagine um blogueiro que em vez de deletar os comentários mal-educados arrancasse um pedaço de cada um? Tipo assim, vem um idiota qualquer e comenta:

ae seu merda vsf soh screvi merda tu e um merda msm hem pqp

E o blogueiro Hannibal entra em ação rapidamente; dois segundos depois, quem abrir a caixa de comentários verá isto:

ae vf sh scvi meda mm hem pp

Ou pior:

a***********f soh scr******************rda ms********qp

De quebra, o blogueiro poderia conduzir os idiotas ao desespero, explorando seus traumas e psicoses ocultos e os fazendo engolir o próprio teclado. Eu ia falar mais, mas não quero dar spoilers do segundo filme.

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Assim, ó

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 29 dUTC Junho dUTC 2008

Fico pensando que o final de junho deve ter algum significado no meu mapa astral, alguma relação com câncer e coisa e tal, porque dia vinte é meu aniversário de namoro (este último foi o quinto aniversário, bodas de plástico, eu acho) e hoje é aniversário de duas pessoas importantes. O primeiro porque é um amigo querido que eu conheci criança, reencontrei adolescente e do qual me separei só na faculdade; a segunda porque é minha mãe mesmo.

Daí a minha mãe passou no concurso da Petrobrás bem pertinho do aniversário dela. Não é um presentão e tal, mas dinheiro nunca é demais e eu tenho mentalidade burguesa, para mim dinheiro é (quase) tudo. Mas o negócio é o seguinte, parabéns mamãe e eu quero a minha comissão nos seus benefícios de funcionária pública.

O resto é bobagem.

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I don’t speak fuckin’ english

Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 25 dUTC Junho dUTC 2008

Não sei se vocês lembram de uma musiquinha que dizia assim, ah, puxa, eu mesmo esqueci. Havia algo de interessante nessa música, um não sei quê… falando nisso, lembrei daquele verso do Propércio, acho que é do Propércio: nescioquid maius nascitur Iliade. Na época os intelectuais devem ter pensado algo parecido com quando Olavo de Carvalho saiu gritando que Bruno Tolentino só tinha par em Camões, em toda a língua portuguesa.

Até consigo imaginar um rhetor da época torcendo o nariz quando lhe perguntavam sobre a Eneida: “oh, sim, veja bem, esse Virgílio tinha umas posições muito retrógradas, inclusive ele morreu outro dia, não foi”. Provavelmente havia hordas de supermodernos leitores de Ovídio que franziam a testa e se viravam à simples menção do nome de Virgílio, sentindo um inexplicável desejo instintivo de sufocar seja quem for que pronunciou aquele palavrão. Que digo, Ovídio? Os leitores de Ovídio deviam ser esquerda moderada. Os crazy dudes mesmo eram os seguidores da escola de Catulo, de cujos poetas só se conhece Catulo porque ele foi o primeiro e o único que prestou…

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Por que paulistano diz “puta que o pariu”?

Publicado por Rafael Falcón em Terça-feira, 24 dUTC Junho dUTC 2008

Às vezes me ocorre que eu poderia vir aqui e escrever um texto enorme e cheio de invectivas muito sérias contra os malditos medíocres que empanturram a) a universidade; b) o Brasil; c) os meios de comunicação; d) o mundo; e) a História do Ocidente. Mas aí eu penso que é isso, meu filho, é tão melhor escrever alguma coisa espirituosa e divertida da qual você não vá envergonhar-se daqui a um ano, não é mesmo? Sim, é tão melhor, mas é tão vazio que, Jesus, queria não ter esse superego pós-moderno que me impede de ser sério.

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Os Lusíadas

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 22 dUTC Junho dUTC 2008

Depois do hino nacional traduzido

Um monte de portugas escalado,
Que tava armados cuma esquadra insana,
Por mares que ninguém tinha pisado
Passaram daquela coisa africana,
E davam sempre uns duro danados,
Porque o serviço é coisa desumana,
E cuns mano bem de longe prepararam
Uma comunidade que acertaram,

E também pras galera melindrosas
Lembrarem que teve uns reis se ligando,
Que por isso as pessoa mais fogosas
Quietar’o facho e foram se apagando,
E as milícia que vem muito prestosas
E ajuda o povo se imortalizando,
Eu vou falando da Terra até Marte,
Se rolar patrocínio da Funarte.

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Fenomenologia Carioca (em aforismos)

Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 19 dUTC Junho dUTC 2008

I
Antes de mais nada, deve-se compreender que Ah é igual a Bêh.

II
Existe um intervalo entre a coisa-em-si e a coisa como a percebemos. Esse intervalo é demorôh!.

III
O Bem e o Mal não existem senão na percepção humana. Nessas condições, o Bem é nóhish e o Mal é paulihshta.

IV
As distâncias geográficas são determinadas por nossa visão de mundo. Por isso, Búziush éh maish lonj qui a Bahia!.

V
Não temos acesso mesmo ao que acontece em nosso corpo, a não ser por via da percepção. Daí que cigáhrru éh moooitu piohr du qui maconha!.

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Um pequeno tesouro

Publicado por Rafael Falcón em Segunda-feira, 16 dUTC Junho dUTC 2008

Calímaco dizia que um grande livro é semelhante a um grande mal, e assim afirmava por oposição que um livrinho era semelhante a um grande bem. Hoje comprei um pocket book que reúne vinte e nove cartas do filósofo Sêneca, traduzidas diretamente do latim. As cartas de Sêneca não comportam qualquer interesse pela sua vida, porque foram escritas visando à publicação; ele escreve para seu amigo Lucílio, mas passa o tempo todo considerando os futuros leitores, que ele mesmo chama de “pósteros”.

Sêneca inscreve-se na mesma tradição dos diálogos de Platão e, com suas cartas morais, procura divulgar e justificar de maneira pragmática as teses do estoicismo, filosofia que influenciou nossa cultura mais que qualquer outra. Quando digo “justificar de maneira pragmática”, estou me referindo a aplicar os princípios de uma doutrina em situações verossímeis, próprias ao cotidiano. As cartas permitiram a Sêneca esse tipo de estratégia discursiva, entre muitas outras.

De uma maneira geral, o que importa é notar que as cartas a Lucílio são um bálsamo para o espírito, principalmente para quem observa os homens e lamenta o que vê. Falta-lhes aquela sabedoria prática, real, ligada às coisas da vida; é isso o que Sêneca nos oferece, muito gentilmente, com sua linguagem despojada e seu espírito sereno. Mais que um grande bem, trata-se de um pequeno tesouro.

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O que há dormente (um conto de horror em quatro parágrafos)

Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 14 dUTC Junho dUTC 2008

Quando eu estava nos meus dez anos, meu pai gostava de me ler O Corvo de Allan Poe, na sexta-feira de cada semana, que era quando eu podia ficar acordado até mais tarde. Sentava-se à minha cama e dizia que primeiro eu o ouviria em inglês, que eu não compreendia bem, e depois em português, que fui descobrir ser uma tradução de Fernando Pessoa. Ficou-me gravado um verso em inglês, que por alguma razão despertava um terrível medo do desconhecido na minha mente monoglota; talvez os sons, talvez as poucas palavras que eu entendia, talvez as duas coisas juntas… era and the lamplight o’er him streaming throws his shadow on the floor. Cinco anos depois, no leito de morte de meu pai, perguntei-lhe como era aquele verso na tradução que ele me lia. Respondeu baixinho, com um sorriso no canto esquerdo da boca, com o misterioso olhar que ele tinha ao recitar aqueles versos: e a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais… calou-se em seguida, e nunca terminou de recitar a estrofe. Era sexta-feira, e eu podia ficar acordado até mais tarde…

Foi com vinte anos que eu comecei a superar a falta de meu pai. Meu irmão caçula me conseguiu um bom emprego no centro, onde as coisas acontecem, e eu pude alugar um apartamento só meu. Um grande avanço na minha vida, dizia minha mãe, agora eu estava por minha própria conta. A isso ela chamava independência: a isso eu chamei solidão. Por alguma razão, desde criança eu me sentia observado, ainda que nunca nenhum ser humano saudável tenha olhado para mim com mais interesse que para um pente usado. Talvez por isso, todos os dias eu saía para trabalhar e, na volta, como não tivesse nenhuma grande emoção a esperar por mim no apartamento vazio, observava também a tudo. Mas observava principalmente as pessoas ao meu redor, sempre tão concentradas em suas tarefas que nem cogitariam que alguém na mesma rua pudesse estar prestando atenção nelas…

Era uma quinta-feira, noite escura, quando eu parei numa esquina para observar uma moça solitária que pisava delicadamente. Gostei-lhe das cores sóbrias, dos poucos apetrechos; à medida que ela se aproximava, pude ver-lhe melhor o rosto, que era suave como os seus passos, e os olhos, escuros mas faiscantes. Não houve jeito: segui-a. Virou três esquinas seguidas, como se me provocasse; só me atiçou mais ainda, e pus todas as minhas atenções em não a perder de vista. Finalmente, entrou num beco e passou por uma portinha marrom. Era um prédio velho, pensei, velho demais para uma moça tão elegante. Olhei para a porta, então para a rua; não podia invadir a casa de uma pessoa, é crime. A velha sensação de estar sendo observado ficou ainda mais forte. Mas lembrei que por um instante, antes de virar a esquina, foi como se a moça me visse… como se sorrisse para mim. Ela queria que eu a seguisse? Era o (hipotético) sorriso um convite? Talvez: se a porta estivesse destrancada, seria o sinal definitivo. Pus a mão na maçaneta e girei. Abriu-se a porta, e também um pequeno sorriso no meu rosto…

Não sei por quanto tempo fiquei preso naquele saguão. Quatro meses, dois anos? Tudo o que eu retinha na memória era a porta se abrindo, o corredor à minha frente e uma dor lancinante; depois, o saguão malcheiroso, as velas e artefatos metálicos por todo lado. Prenderam-me no chão, nu, com uns braceletes de metal nos meus braços e pernas, que permaneciam abertos. Um quinto “bracelete” no meu pescoço impedia que eu levantasse a cabeça para ver melhor o chão. Às vezes me davam de comer, e era desagradável comer sempre deitado; naquela noite, como em outras, era uma vitamina horrível. Reuniram-se ao meu redor, como sempre; no teto, cinco luzes muito intensas foram acesas, e eu tive de fechar os olhos. Começaram a rezar uma ladainha tenebrosa, sibilando por entre os dentes e urrando vogais redondas. Aquela ladainha era diferente, estavam mais empolgados. Súbito, um ruído novo chamou a minha atenção: havia algo ruminando a um metro e meio do chão… em cima de mim. O som parecia ir lentamente se aproximando do meu corpo, e eu não conseguia abrir os olhos por causa das luzes logo em cima, até que me lembrei: and the lamplight o’er him streaming throws his shadow on the floor… Virei a cabeça para o lado e olhei o chão, em que as cinco luzes projetavam a sombra da coisa. Era esguia e tinha uma cabeçorra estranha, com o que pareciam ser três chifres, e não pude mais olhar. Fosse o que fosse, não era humana. Ela ruminava acima do meu rosto. Eu estava apavorado. Pensei em meu pai:

E a minh’alma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

E o ruído sumiu no silêncio.

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Sol Comatoso

Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 12 dUTC Junho dUTC 2008

Não quero! as desgraças rotineiras,
as notícias do jornal.
Não quero! não ser alienado.
Me lixo para toda miséria.
É sério.

Nem quero os sonhos impossíveis e as sementes
que não florescem…!

Quero a flor que brota da fria,
quero as auroras brilhantes.
A criança que nasce,
tão burra que chora.

E – choro à ternura! -
desfaz-se a infância
se o que antes foi mera
alegria, já é dor.

O sol comatoso,
a impotência em ato,
a vida inteira
que poderia ter sido, e quase
foi.

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Ditos e contraditos

Publicado por Rafael Falcón em Terça-feira, 10 dUTC Junho dUTC 2008

Acabei de chegar do coquetel de lançamento da única revista que comprei nos últimos três anos. Dicta&Contradicta é a coisa mais chamativa que vi esses dias, tirando os quarenta macacos-pregos que vieram ab Goiania de ônibus a São Paulo e ficaram hospedados na mesma pensão que eu.

Faltou o autógrafo do Ruy Goiaba, que ao que parece não estava presente, e a visão inestimável que ficará a dever-me o mítico Lord ASS. Valeu pela revista, que é ótima, e pela companhia dos bons e velhos colegas reaças da Letras, que naturalmente foram “prestigiar o evento”. Mil piadas sobre o Olavão, mil imitações dos irmãos Campos e do Rui Salsicha, mil diversões que only conservatives can unlock for you. Boa noite.

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