Rafael Falcón em Perspectiva

Porque em perspectiva tudo fica mais bonito

Poesia Concreta

Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 7 dUTC Maio dUTC 2008

A poesia acaba de ficar mais concreta ao religar-se à cultura popular. Cláudia Leitte faz o que ninguém havia ainda conseguido, e oficializa a apropriação da poesia pelo povo em seu belíssimo poema para sua sobrinha. Alguns dos melhores trechos:

E lhe ensinamos:
A soltar pipas,
Fazer rimas,
Ou um barco, se nao gostar de rimar.

(esta eu acho que é até metapoética)

Escola?
“Ah! Merenda.”
Se comer, apanha!
Quer viver, aprenda!
Aprenda logo a roubar.”

Esta eu não podia deixar de colocar. Está ressoando na minha cabeça há dias: “se comer, apanha!”, “se comer, apanha!”.

Pedofilos, Parasitas, Patifes
e ateh um bando de Politicos.
Baratas, Barbeiros e outros mosquitos.

Uns repousam sobre as feridas e as remelas,
outros trazem febre, que nao importa se eh amarela,
fazem a crianca colorida, acinzentar.

Um colega observou que “baratas” não são mosquitos, e que a moça deve ser uma das crianças que, segundo o poema, não têm escola. É, pensando bem todo o poema pode ter uma leitura metapoética. Mas excelente é a rima de “remelas” com “amarela” e a passagem absurdamente lírica da criança colorida que fica cinza.

Silencio de um povo que segue
Porque o seu umbigo eh a piscina onde se nada.
Nada. None!
Todo dia uma criança some.
Nada! E mais Nada!
Todo dia tem uma violentada!

Eu não entendi o lance do umbigo, é uma metáfora muito complicada para a minha cabecinha. Imagino que ela queira dizer que o Brasil só olha para o próprio umbigo, e representou o atolamento dessa situação com a figura de uma piscina, onde não dá para andar, só para nadar. E a genial e original troca do verbo “nadar” na terceira do singular pelo substantivo “nada”, seguida do estrangeirismo “none”, que ela apropria lingüisticamente a ponto de não ser possível manter a rima com “some” se não pronunciarmos a palavra estrangeira com as regras fonológicas do português. Belíssimo. Nem comentarei o “todo dia tem uma violentada”, está além da minha capacidade crítica.

A rima de “Isabella” com “Cinderela” é maravilhosa, não tenho comentários. Finalmente, a tradução do título (que era em latim), “nem tudo o que é lícito é honesto”, leva à conclusão fatal: “apenas a confiança no PAI [reparem que a palavra está TODA em maiúsculas, isso tem sentido] nos ajuda com o resto”.

Quem esperaria que fosse produzida uma representação tão perfeita da situação das mentes infantis no nosso Brasil varonil?

2 Respostas para “Poesia Concreta”

  1. [...] Comentários (RSS) « Poesia Concreta [...]

  2. [...] tratou, certo? E tudo isso só por uns pontinhos a mais de ibope… Depois do poema da Cláudia Leitte, era só essa que faltava [...]

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