Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 6 dUTC Dezembro dUTC 2009
A segunda vez foi quando nos encontramos casualmente, eu, ele e meu amigo que o achava um idiota. Ele nos cumprimentou brevemente e com olhar passivo. Meu amigo não gostou da ideia de ter de falar com Emmanuel, mas não quis fazer uma falta de educação. Eu talvez fosse quem mais queria que aquele encontro acontecesse.
- Então o que você tem feito? – perguntou meu amigo.
- Nada demais, respondeu Emmanuel, dando de ombros.
- Não anda mais ofendendo as pessoas?
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Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 2 dUTC Dezembro dUTC 2009
Esta é a história de um segredo.
Quando o vi pela primeira vez, ele me pareceu quase normal, o que era um pouco detestável; principalmente quando se leva em conta o quanto eu estava cercada de seres bizarros que, a despeito de sua bizarra complexidade, àquela altura já me causavam algum triste enfado. Mas ele era quase normal. Vestia-se normalmente, penteava os cabelos. Seu rosto não era inexpressivo, mas também não tinha emoções fortes. Quando eu o vi, ele parecia ligeiramente preocupado, mas assim, só ligeiramente. Não lhe prestei a menor atenção até um colega ao meu lado dizer:
- Esse cara é um idiota.
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Publicado por Rafael Falcón em Terça-feira, 1 dUTC Dezembro dUTC 2009
Quando eu tinha quinze anos, escrevi um poema excepcional, não por qualidade poética, mas por inspiração autêntica e pura, que revelava de modo quase transparente o que se passava dentro de mim. Poça de Sangue é uma límpida fonte para conhecer o modo como eu percebia o amor aos quinze anos. Lamentavelmente, o texto perdeu-se, e restou apenas o que retive na memória; ganhou, assim, existência semelhante aos mitos, e seu sentido completo é para mim um mistério, porque já não tenho o objeto em si mesmo para analisar. Possuo, no entanto, as sensações que tive ao escrevê-lo e o reler algumas vezes, pois tudo isso está na minha lembrança.
A primeira parte do texto existe para mim como um conjunto de impressões. Lembro-me fortemente de expressões de dor, da figura de uma espada cortando o tendão, e de um abismo solitário. A sensação era de um mundo reativo e inimigo, quixotesco até, pois tudo eram grandes moinhos a atacar-me caoticamente; o elemento social, pelo que me lembro, comparecia sob a forma de máscaras que riam na escuridão, isto é, atacando-me do mesmo modo, sem que eu pudesse apreender uma ordem naquilo tudo. Pode-se dizer que eu, isto é, a unidade subjetiva da minha força vital, fui desintegrado pelas forças externas ou meramente por existir sozinho no mundo das forças externas. Daí surgia a poça de sangue, o substrato dessa fase. O sangue é a força vital, que perdeu a unidade do eu e se tornou uma poça inerte. A poça de sangue, então, é a imagem das ruínas que um dia foram vida; é a casca morta da vida; é o triste signo do nada que já foi alguma coisa.
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Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 25 dUTC Novembro dUTC 2009
Vejo certa utilidade em explicar algumas partes do último post que, apesar de não concederem automaticamente a compreensão do texto, podem ser instrumentos importantes para a sua aquisição. O sentido global do post não pode ser explicado aqui, pelo menos não por mim; provavelmente eu gastaria dezenas de páginas para o primeiro parágrafo. Portanto, o leitor faça sua própria introjeção do texto, que talvez seja mais rica que a minha.
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Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 21 dUTC Novembro dUTC 2009
Nalgum lugar entre a montanha celeste e a floresta dos murmúrios, vivia há trinta anos um mago chamado Teofrasto, que alcançara a iluminação. Desde então, o mago vivia numa atmosfera maravilhosa e incomunicável: tudo em volta lhe parecia de ouro (e, de fato, ele era capaz de converter o mais rude musgo numa pepita valiosa). Seus poderes alcançaram a elevação suprema, pelo que nada lhe era impossível, e mesmo a consciência, cuja deficiência levara muitos magos a perderem-se pelas próprias mãos, em Teofrasto estava apurada ao máximo, pois ele se entendia no todo da natureza e compreendia o ponto transcendente para o qual tendiam todas as coisas, e pelo qual tudo havia sido criado e era mantido. É claro que você não entendeu uma palavra do que eu disse.
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Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 6 dUTC Novembro dUTC 2009
Eu andava pelas cidades e vales com a imaginação tomada por possibilidades. Pensava na vida, nos sentidos, na sociedade, na construção civil, na religião; pensava no que me aparecia como sendo parte da vida humana, aqui e acolá. Pensava na dor e na alegria, e era isso o que eu chamava de tristeza e felicidade, de mal e de bem.
Minha vida era ocasião de muitas desventuras, porque eu me entendia como um lugar em que as forças do destino brigavam, trazendo ora a felicidade, ora a tristeza, preenchendo-me, tomando-me. Minha vida era um enfadonho romance, pode-se dizer, com medíocres reviravoltas que me serviam mal no lugar de aventuras grandiosas e ficcionais.
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Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 31 dUTC Outubro dUTC 2009
Fecha os olhos e vê: há uma rosa vermelha
No topo da montanha, e não queres olhar.
Olha, olha! Já se agita
A brisa da montanha
Ela vai, como que colhe
A rosa da montanha
E valsando procura a teu lado pousá-la.
Procura; não pode. Esta brisa é instável;
Move-se, move-se, e a rosa desfaz.
Move-se;
Move-se…
Pétalas caem
Sobre o teu rosto
E o colo suave,
E sentes as pétalas roçando suaves
A pele grosseira que tu maltrataste.
E súbito vês: não era mais rosa!
Líquidas pétalas cobrem de sangue
O teu colo vermelho, teu rosto gentil
E vês que teus pés vão-se rápido fixando
Tornando-se caule, tornando-te rosa;
És rosa e contemplas, do alto da montanha,
Os vales abaixo… os rios defluindo,
Uma moça chorando aos pés da montanha!…
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Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 30 dUTC Outubro dUTC 2009
Eu estava num ponto de ônibus quando vi uma moça passar. Sisuda, andar firme, não olhava para os lados. Nem um pingo de doçura. Era rígida, dessas mulheres que não se amam; quem ama esta mulher? Não sei; a ideia parece-me absurda. Mas ela passava frígida, lábios espremidos com força debaixo do nariz adunco. Magricela. Odiei. Que passe, pensei, rápido como as dezenas de outras iguais que vejo neste ponto de ônibus. Que passe.
Mas ela viu chegar seu ônibus, o que me deu uma pontinha de raiva. Pude ver a expressão desagradável em seu rosto moldar-se a algo como esperança, mas esperança num rosto desagradável. Odiei sua satisfação, ela que não sorria, que não amava; ela que eu não amava. Irritei-me; esperava há mais de quinze minutos pelo meu ônibus.
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Publicado por Rafael Falcón em Segunda-feira, 12 dUTC Outubro dUTC 2009
Sei que parece incrível, mas é verdade. Ando pensando muitas coisas, mas agora estou com esse estranho hábito de pensar direito antes de sair falando. Tenho ideias, mas todas são como faíscas saindo da pedra de acender fogo. A fogueira mesmo ainda vai demorar para sair. De qualquer modo, às vezes sai um fogo-de-palha que eu posto no blog.
Sei que você se acha muito esperto, mas eu também percebi que faz meses que não posto nada sem o nome de Deus. Ôps, fiz de novo. Andei preocupado com a minha relação com Ele, mas agora estamos nos resolvendo, aos poucos e com muitas concessões da parte dEle, esse Amor de Pessoa. Não mereço nem metade das concessões, mas o amor não é assim? É sim.
Alguns dos possíveis temas dos meus próximos posts (porque são assuntos sobre os quais ando tendo insights) são: educação, linguagem, casamento/filhos (isso mesmo, com aquela nanica), misticismo, desenvolvimento da personalidade/hipnose. Tem mais coisas, mas isso é o que lembro agora. Vai saber o que vou tirar disso tudo. Tchau.
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Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 19 dUTC Setembro dUTC 2009
Deus fala conosco. Não só por milagres, os sinais incontestáveis que ele fornece para chocar o entendimento humano; não só pela instituição chamada Igreja Católica, que interpreta, divulga e resguarda Seus mandamentos misteriosos; não só pelas Escrituras, que são o testemunho de Sua encarnação incompreensível. Deus fala, sempre que o mundo existe; fala por meio das outras pessoas, mesmo quando elas não percebem; fala pelos fatos. A realidade é a linguagem de Deus; eis porque jamais há contradição entre Deus e a realidade.
Deus não fala só com os que professam a fé católica, nem só com os que professam alguma fé. Ele fala com todas as pessoas, porque os fatos existem para todos os seres inteligentes. E Ele não apenas fala; seu discurso eterno é apaixonado, intenso, pessoal. Deus nos ama individualmente e pessoalmente, sim; Ele fez nossas almas uma por uma, e planejou nossa salvação de acordo com as nossas necessidades particulares. Deus nos ama pessoalmente e infinitamente, como só Ele pode amar.
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