Eu andava pelas cidades e vales com a imaginação tomada por possibilidades. Pensava na vida, nos sentidos, na sociedade, na construção civil, na religião; pensava no que me aparecia como sendo parte da vida humana, aqui e acolá. Pensava na dor e na alegria, e era isso o que eu chamava de tristeza e felicidade, de mal e de bem.
Minha vida era ocasião de muitas desventuras, porque eu me entendia como um lugar em que as forças do destino brigavam, trazendo ora a felicidade, ora a tristeza, preenchendo-me, tomando-me. Minha vida era um enfadonho romance, pode-se dizer, com medíocres reviravoltas que me serviam mal no lugar de aventuras grandiosas e ficcionais.
Eis que passei dos limites e fiz mal a alguém; tirei-lhe a vida, a esperança e a possibilidade de voltar a viver. E logo vi que o mal não doía; antes era algo pacífico, neutro, objetivo até. O sofrimento que minha vítima sentiu não me feria. Logo percebi que quanto maior o mal menos dor havia! Porém eu sentia algo. Mas era diferente do que eu chamava de felicidade ou tristeza. Não era uma sensação, na verdade; era mais a percepção de um conflito. Pois toda sensação vem acompanhada de um impulso; o prazer atrai, a dor repele; mas esta era indecifrável, e era como dois impulsos que brigavam. Como um não vencesse o outro, pude distrair-me de seu combate mesquinho e examinar uma outra parte de mim que estava ali.
Assim vi que eu era três, e que a felicidade e a tristeza, conforme eu as entendia, não eram senão atrizes no palco da minha alma, cujo grande patrocinador e diretor era um terceiro. Este senhor distinto e elegante, aparentemente, passava os dias assistindo às encenações da dupla de meretrizes, que ele mesmo pagava e aplaudia, desinteressado de sua própria função na vida. Perdido de si, ele procurava concentrar-se no palco. E percebi que, distraído como estava, ele não dava àquela peça a sua unidade, não guiava os acontecimentos para um fim determinado, mas deixava as duas senhorinhas improvisarem continuamente. Como aquilo não parecia justo nem para elas nem para mim, tratei de acordá-lo, e lhe disse: – Anda! Que sem ti esta peça não acaba em tempo. Não podemos viver de improvisação! E ele, tirando uma rosa da lapela, entregou-me e disse: – Planta-a onde chove e faz sol, para que não pereça por secura nem seja afogada por enchentes. Tenho a rosa em mãos, mas és tu o responsável por plantá-la. E, se bem que ela deve ter água e luz, não me esquecerei de fazer com que cresça sempre para o alto; quanto a isso, é coisa da natureza que os contrários coexistam em benefício do que é superior.