Rafael Falcón em Perspectiva

Porque em perspectiva tudo fica mais bonito

Wilhelm Meister e minha formação

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 5 dUTC Fevereiro dUTC 2010

Não farei uma crítica propriamente literária ao livro, por muitas razões; entre elas, porque há coisas mais urgentes e proveitosas para fazer sobre Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. O livro quase me enlouqueceu; nele, presenciei fatos tão reais e personagens tão perfeitas que quase me vi diante de um quadro estático e ofuscante da própria vida humana. A mera proximidade que o livro me sinalizou da experiência real foi o bastante para lançar-me contra todos os cantos, mover-me aqui e acolá, aprofundar-me no que pensava já estar aprofundado.

Todos sabem que há muito o que mais me preocupa é a formação do homem, especificamente porque quero formar-me a mim. Procurei a resposta num plano de estudos cada vez mais abrangente; comecei pela convicção de que era preciso ler os antigos, depois ler tudo nas línguas originais, então aprender semiótica, em seguida mergulhar numa senda mística. E cada vez era um o segredo da formação humana, mas cada vez se tornava mais perceptível para mim que, tendo fracassado as primeiras soluções, era provável que as futuras fracassassem, se fossem unilaterais e escolhidas de modo meio acidental, meio passional, baseado em impressões.

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São Tomás de Aquino

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 29 dUTC Janeiro dUTC 2010

Nascido na Itália em 1225, Tomás de Aquino é considerado o maior teólogo ocidental de todos os tempos. Escreveu a Suma Teológica, exame monumental de praticamente tudo o que possa interessar ao ser humano, e a Suma Contra os Gentios, em que respondia aos ataques de filósofos e teólogos – seja ao conceito de Deus, seja à religião católica. Além disso, é autor de alguns dos mais belos hinos religiosos conhecidos, o que faz dele também um grande poeta.

Tomás era de família nobre e foi entregue aos monges beneditinos, como era o costume, para ser educado. Nesses primeiros anos de vida, os professores já se impressionavam com duas coisas: o fato de Tomás estar sempre pensativo, e de perguntar muitas vezes: “O que é Deus?”. Depois de ser educado nas primeiras letras, foi enviado por sua família à Universidade de Nápoles, onde pela primeira vez teve contato com os clássicos gregos e árabes que viriam a moldar seu pensamento. Ele tinha então catorze anos. Lá ele teve contato com os irmãos dominicanos, monges que trocavam a vida de trabalhos manuais (mais tradicional) por atividades como a pregação religiosa e o ensino. Rapidamente, Tomás decidiu entrar no mosteiro e começou a ser educado. Isso surpreendeu muito a seus colegas na universidade e a toda a cidade; pois como podia um nobre daquela idade querer tornar-se um pobre frei, quando podia entregar-se a diversões e prazeres como os demais?

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Sócrates

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 15 dUTC Janeiro dUTC 2010

Nascido e morto na Atenas do século V a.C., Sócrates foi o fundador da filosofia ocidental e modelo moral para muitos dos maiores homens que viveram neste mundo. Teve uma educação tradicional, o que na Grécia de sua época significava aprender música, literatura, geometria e ginástica; guerreou na juventude e ficou conhecido por feitos heroicos, como salvar a vida de Alcebíades – que havia tombado em batalha – usando seu próprio corpo para proteger o do companheiro.

Andava pela praça de Atenas, conversando com todos os que passavam. Fazia muitas perguntas e tentava responder às que lhe eram feitas, na medida do seu conhecimento. Porém, foi muito caluniado, como ele mesmo diz no seu julgamento:

Quê? Qual é o mal que Sócrates pratica ou ensina? Eles não sabem, e não conseguem dizer; mas, para que não pareçam estar perdidos, repetem as acusações prontas que se usam contra todos os filósofos: ensinar coisas de acima das nuvens e debaixo da terra, não crer na divindade e fazer a pior causa parecer a melhor. Pois eles não gostam de confessar que sua pretensão de conhecimento foi detectada – essa é a verdade; e, como eles são muitos e passionais, e estão todos na linha de batalha, e possuem línguas persuasivas, encheram os ouvidos de todos com suas calúnias altas e inveteradas.

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Meditação

Publicado por Rafael Falcón em Quinta-feira, 14 dUTC Janeiro dUTC 2010

A meditação é o exame contínuo de uma determinada questão. Por isso, deve ser praticada do seguinte modo:

  1. Tendo decidido o problema a ser meditado, fixe-o na mente com o máximo de esforço.
  2. Permita aos poucos que a imaginação flutue ao redor do tema, até que apareça uma boa ideia (é importante continuar até que a ideia apareça, sem desistir).
  3. Tome essa ideia e siga suas consequências, tentando atingir uma solução para o problema inicial. Não dê saltos, faça raciocínios precisos. Estipule um tempo mínimo (10 minutos parece bom para iniciantes; para alunos com mais prática, 30 minutos). Esta etapa termina quando você encontrar a solução ou quando o tempo estipulado acabar; o que vier primeiro.

O processo pode ser repetido várias vezes para o mesmo tema. Cada vez a solução será diferente, pois virá de uma ideia diferente; mas, se todas as ideias iniciais forem verdadeiras, o mesmo valerá para as soluções. No fim de várias meditações sobre um mesmo tema, o aluno possuirá uma visão mais clara e complexa do objeto.

Hugo de São Vítor diz que a meditação considera os seguintes aspectos das coisas: causa, origem, modo e utilidade. Ou seja, a meditação pode ser etiológica (que procura as causas do objeto), cronológica (que procura a origem do objeto), ontológica (que procura o modo de existência do objeto) ou técnica (que procura o uso prático do objeto). Pode-se usar essa divisão como orientadora, quando a meditação ficar confusa.

Quanto aos possíveis objetos da meditação, Hugo divide-os em três: caráter (vícios e virtudes), mandamentos divinos (preceitos, promessas e ameaças), obras divinas (resultados da ação do Pai, do Filho ou do Espírito Santo). Portanto, segundo o objeto, a meditação pode ser moral, doutrinal ou científica.

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Sobre a meditação, por Hugo de São Vítor

Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 9 dUTC Janeiro dUTC 2010

(Didascalicon, Livro III, Capítulo 10)

A meditação é uma reflexão contínua acompanhada de deliberação, que investiga com prudência a causa e a origem, o modo e a utilidade de uma dada coisa. A meditação tem seu princípio na leitura; porém, não se prende a nenhuma das regras ou preceitos da leitura. Pois ela se compraz em percorrer certo espaço aberto – onde encosta sua livre agudeza na verdade a ser contemplada – e ora conectar estas causas das coisas, ora aquelas outras, ora penetrar quaisquer coisas profundas, e não deixar nada ambíguo, nada obscuro!

Portanto, o princípio do ensinamento está na leitura, e sua consumação está na meditação; e se alguém aprender a amá-la mais familiarmente, e quiser com mais frequência estar disponível para a meditação, ela muito lhe devolverá numa vida maravilhosa, e lhe providenciará a maior consolação nas desgraças. Pois ela é, mais do que tudo, o que separa a alma, com estrépito, das ações terrenas, e mesmo nesta vida faz prelibarmos de algum modo a doçura da quietude eterna. E quando o aluno já tiver aprendido a procurar e entender, por meio das coisas criadas, Aquele que fez todas as coisas, então expandirá o espírito e o conhecimento, e derramará alegria, pelo que ocorre que o deleite na meditação seja o maior.

Há três gêneros de meditação: um consiste no exame do caráter; outro em perscrutar os mandamentos; o terceiro na investigação das obras divinas. O caráter é vícios e virtudes; o mandamento divino ensina uma coisa, promete outra, ameaça outra. A obra de Deus é o que a Potestade cria; o que é organizado pela Sabedoria; e o que é co-produzido pela Graça. E todas essas coisas, quantas sejam as dignas de admiração, cada pessoa as conhece tanto mais quanto mais atentamente se acostuma a meditar as maravilhas de Deus.

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Eva ou Tratado sobre a mulher

Publicado por Rafael Falcón em Sábado, 2 dUTC Janeiro dUTC 2010

Então Deus, o SENHOR, lançou um sono pesado sobre o Homem, que adormeceu; Ele tomou uma das suas costelas e cerrou a carne em seu lugar.
E da costela que Deus, o SENHOR, tomou do Homem, Ele formou uma mulher, e trouxe-a ao Homem.
o Homem disse:  isto é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; será chamada Mulher, porque foi retirada do Homem.

Existe uma natureza feminina, que é inexorável, e pode ser ignorada como conceito, mas não como efeito real. As mulheres deste tempo, muitas das quais mal sabem fritar um ovo, sentem no entanto tal desespero que suas potências femininas precisam extravasar-se em profissões externas e círculos viciosos da mente. Além disso, é muito do nosso tempo que as mulheres se sintam impelidas a entregar-se a toda promessa de auto-suficiência, como os programas meditativos da New Age ou a ética hippie do sexo livre. Substitutos mais recentes são a “auto-realização profissional” e a “participação política”. Por alguma razão, todas as tentativas são malogradas, a ponto de terem que caçar novas promessas tão-logo as últimas falhem. Esse é o triste destino da chamada mulher moderna, que é dona de si… de si: a coisa que ela mais odeia no mundo.

Muitas acreditam em superar o próprio sexo. Dizem que antes de mulheres são seres humanos, esquecendo que “humano” é uma categoria mais genérica, e não um oposto contraditório. Quando dizem que querem ser humanas, querem dizer que querem ser homens. Afinal, para ser humanas, não precisam “superar” a condição de mulheres; na verdade, para elas ser mulher é o único modo de ser humano. Por isso, é missão de toda mulher tentar compreender a condição sob a qual veio ao mundo, e se encaixar na estrutura que lhe é a única possível.

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O Fogo do Inferno

Publicado por Rafael Falcón em Segunda-feira, 28 dUTC Dezembro dUTC 2009

Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus, significa permanecer separado d’Ele para sempre, por nossa própria livre escolha. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa pela palavra «Inferno» (Catecismo da Igreja Católica, p.1033).

É desrespeito vil à tradição milenar do Cristianismo que se pense ainda por aí que o inferno é um lugar onde as pessoas são queimadas. Isto é um insulto à linguagem simbólica de Cristo, que fala por imagens quando não há outro meio de falar. Passar para a eternidade, tanto em corpo quanto em espírito, é passar para outro modo de realidade, no qual o fogo não faz sentido algum.

Uma coisa é certa: ninguém sabe exatamente o que é o inferno. O inferno é um mistério, tanto quanto o Paraíso, pois ambos são realidades supra-vitais, para além da existência terrena. Ninguém viu, diz S. Paulo do Céu, referindo-se à magnitude dos bens. O mesmo vale para os males do inferno: ninguém pode imaginar como são.

Cristo chamou-o de Geena de fogo, aludindo a uma região em que os judeus jogavam lixo. Essa imagem informa muitas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, que o inferno é o “lugar” aonde vão as almas inutilizadas pelo pecado, isto é, as que Deus, mesmo querendo, não pode usar, tal como nós não podemos comer lixo. Segundo, que lá o lixo é queimado, isto é, não é aproveitado de modo algum, e as almas padecem algo comparável à dor do fogo neste mundo. Não é possível deduzir coisa alguma a mais. Provavelmente Cristo escolheu o fogo por ser um tipo de dor muito forte e lenta, o que deixa a intensa impressão de que o inferno dói. E muito.

O inferno é referido por Jesus com mais duas expressões: “lá haverá choro e ranger de dentes” e “morte eterna”. Ambos sugerem uma dor espiritual, mostrando claramente que Jesus não espera entendimento literal das suas descrições do além-vida. Como se pode imaginar a morte eterna? Não podemos sequer imaginar a morte! Mas o choro e ranger de dentes são sinais de desespero, tristeza profunda, algo intensamente emocional. Também são apenas imagens para uma realidade grande demais. As emoções não são sentidas do mesmo modo na eternidade.

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Natal

Publicado por Rafael Falcón em Sexta-feira, 25 dUTC Dezembro dUTC 2009

Hoje se celebra o nascimento de Jesus Cristo, coroamento da santa Encarnação. Hoje significa não apenas o primeiro dia de vida daquele que salvou a Humanidade, mas um mistério insondável que é a condição mesma da missão de Jesus Cristo.

O ente misterioso, infinito e eterno cuja existência não passou despercebida ao intelecto de Aristóteles, o Ser que criou e mantém o mundo, Aquele Que É, o Fundamento Transcendente da Realidade, também chamado Deus, deu ao homem o maior sinal possível. Rompeu a barreira lógica entre o infinito e o finito, entre o transcendente e o imanente, entre criador e criatura, e se tornou Ele mesmo um produto limitado da criação. Ao realizar o Milagre por excelência, desprezando todos os limites da criação, Ele não escolheu, porém, outro ser, mas o humano. Com isso, declarou-nos criaturas especiais, merecedoras da maior graça imaginável. Tornou-nos, de criaturas que éramos, em filhos. Adotou-nos. E nos adotou fazendo-nos irmãos de Seu Filho, gerado antes de todos os séculos.

Agora somos filhos de Deus. Somos especiais, somos família para o Ente mais elevado que existe, o próprio Ser, o fim último de todas as coisas. Ele é nosso Pai, e nos ensinou a chamá-lo assim.

Ele quis ser como nós e, assim, elevou-nos a Ele. Ousou pedir-nos: “Sede perfeitos, como vosso Pai no Céu é perfeito”.

Hoje é o dia de agradecer-Lhe por ter-nos amado tanto, a ponto de quebrar as leis elementares da natureza para nos dar a Felicidade e a Vida. Hoje é o dia de visitá-Lo no sacrário, na comunhão, junto a tantos irmãos que, agradecidos, cantam seu “sim” e correm aos Seus braços abertos.

Alguns não se decidiram ainda a aceitá-Lo. Alguns não querem sacrificar seus vícios pelo Amor do único ser que realmente existe, porque É. Alguns não querem submeter-se à autoridade de sua Mãe, a Santa Igreja. Alguns reprimem ainda os santos impulsos de amor que pulsam em seu peito, o desejo de correr a Ele e entregar-se. Cobiça, despeito, paixões, más amizades, tudo pode ser motivo para não ter ido hoje à Santa Missa. Muitos não puderam, foram proibidos pelas leis, pela doença, por necessidades.

Mas mesmo os que não puderam ver Jesus no sacrário, em corpo e sangue de homem, podem vê-Lo como Deus Filho, na realidade que existe Por Cristo, Em Cristo e Com Cristo. Ele é o Verbo eterno pelo qual fomos todos criados, e nos assiste por fora e por dentro da alma. Seu Amor está por toda parte; Ele vê nosso amor, mesmo quando temos vergonha de expressá-lo, e sabe o quanto queremos amá-Lo. Ele nos convida a dizer, timidamente, cá dentro de nós: “obrigado, Jesus. Obrigado por ser meu Irmão”. Vamos esperar que todos percebam, neste dia, o tímido amor que se insinua dentro de cada um, e que o erro de hoje seja uma perfeita conversão amanhã. Natal é tempo de coragem, é tempo de quebrar os grilhões, de libertar-se para a Vida. Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!

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Ele e o outro

Publicado por Rafael Falcón em Domingo, 6 dUTC Dezembro dUTC 2009

A segunda vez foi quando nos encontramos casualmente, eu, ele e meu amigo que o achava um idiota. Ele nos cumprimentou brevemente e com olhar passivo. Meu amigo não gostou da ideia de ter de falar com Emmanuel, mas não quis fazer uma falta de educação. Eu talvez fosse quem mais queria que aquele encontro acontecesse.

- Então o que você tem feito? – perguntou meu amigo.
- Nada demais, respondeu Emmanuel, dando de ombros.
- Não anda mais ofendendo as pessoas?

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Ele e o resto

Publicado por Rafael Falcón em Quarta-feira, 2 dUTC Dezembro dUTC 2009

Esta é a história de um segredo.

Quando o vi pela primeira vez, ele me pareceu quase normal, o que era um pouco detestável; principalmente quando se leva em conta o quanto eu estava cercada de seres bizarros que, a despeito de sua bizarra complexidade, àquela altura já me causavam algum triste enfado. Mas ele era quase normal. Vestia-se normalmente, penteava os cabelos. Seu rosto não era inexpressivo, mas também não tinha emoções fortes. Quando eu o vi, ele parecia ligeiramente preocupado, mas assim, só ligeiramente. Não lhe prestei a menor atenção até um colega ao meu lado dizer:

- Esse cara é um idiota.

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